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Wednesday, August 17, 2011

 
O Nono Mandamento

-Amanhã eu volto.
-Vai com Deus. Levou o casaco?
-Marta, é verão. Deixa eu ir, 'tá na hora, fica bem.
Foi. Marta ficou na cama mais um pouco. Nunca pensou que se casaria com alguém que sairia em "viagem de negócios". Pior que ele falava exatamente assim, que nem num filme antigo: "Semana que vem saio numa viagem de negócios". Só faltava usar um bigodinho e chapéu. Será que se casaria, ou mesmo beijaria, alguém de bigodinho? Na adolescência aqueles buços eram inevitáveis, era isso ou nada, mas depois que os hormônios se aquietaram um bocadinho, nunca mais beijara ninguém de bigodinho ou mesmo bigosão. Barba ou cavanhaque também não gostava, mas bigode nunca mais. Achava - na verdade começava a achar agora, nunca havia pensado nisso - que bigode era que nem pochete, não queria estar com um homem que usasse. Houve uma época em que achou que queria casar com alguém de barba. Qualquer um, desde que usasse barba. Barbas guardam cheiros, ela saberia se fosse traída. Um relacionamento com um babaca mentiroso gera essas insanidades. Teria que usar barba e gostar de sexo oral, claro, pois sem isso a barba não serviria como evidência do crime. Sexo oral! 40 anos na cara e não conseguia falar nada que não fosse educado ou eufemismo. "Chupar", mesmo em pensamento, sova como coisa ruim, feia. Pelo menos gostava do ato em si!
- "Ato em si", que Deus tenha piedade de minha alma, nem pensar livre eu consigo!
Hora de levantar, escovar os dentes, tomar um café, sair não precisava, estava de folga. 24 horas só suas, sem o chato do... epa! "Chato"? Não se lembrava de ter pensado assim, pelo menos não diretamente. Já se havia chateado e enfadado com ele, mas isso é coisa pela qual todo mundo passa. Chamar de chato era tão definitivo quanto chamar de corno e ai meu Deus como foi acontecer essa associação de idéias!!!??? Não, nem pensar. Pior que ele estava de folga hoje, também; certamente sozinho em casa, certamente disponível. A esposa trabalhava em plantões, por que não? Banho, rápido. Frio, de preferência; muito frio. Gelado, se pudesse, que o telefone está perigosamente perto. Pronto, não foi suficientemente rápida ao banho, já está o telefone em uma mão, com cacófato e tudo, e a outra já discando.
-Alô...
-Alô?
Voz de mulher. Desligar, rápido! Mas não, é preciso fazer algo.
-Alô, quem fala?
-Marta, quem é?
Meu Deus, ela se chama Marta também!
-Oi, meu nome também é Marta, trabalho com seu marido...
Meu Deus, meu Deus, meu Deus, o que diabos está fazendo?
-Oi, ele sempre fala de você, como vai?
'Pera lá, fala o quê?
-Fala o quê?
-Ah, que você é divertida, inteligente, eu quase fico com ciúmes!
-E não fica por quê? Quer dizer, que bom que não fica, mas normalmente ficaria; quer dizer, eu ficaria, pelo menos!
-Ah, você não o conhece como eu. Ele é o homem mais caseiro do mundo, fiel como um cachorro velho!
-Acho que ele não ia gostar de ser descrito assim...
-E quem liga para o que aquele chato gosta?
Aquilo a espantou: chato? Será que ela estava fadada a atrair chatos? Seria um carma, algum atavismo?
-Chato como? Ele é bem agradável no trabalho...
-Desculpe, não devia ter falado assim, mas a coisa está feia por aqui. Acabamos de brigar, ele saiu meio que batendo a porta, desculpe, ainda não retomei o controle. E por favor, não comente com ele que eu desabafei com você.
-Desabafou? Mas você não disse nada, só que ele é chato!
-Bem, é quase um desabafo.
-Ué, pode falar à vontade. Não trabalho hoje, estou gostando de conversar. Meu marido quase não conversa comigo.
-Ah, o teu também? O meu chega, conta o que aconteceu no escritório como se fosse uma saga nórdica...
-Saga nórdica é ótimo!
-... e quer que eu demonstre interesse. O único nome em que presto alguma atenção é o teu, sabe como é: Marta também. Fora isso, entra por um ouvido e sai pelo outro. Um saco, um tédio mortal!
-Meu Deus, aqui é igualzinho! Ai, meu Deus, preciso parar de falar "Meu Deus"!
-Por quê?
-Eu sempre tive mania de falar "Meu Deus". No colégio as irmãs viviam me dando castigos p'ra eu parar de invocar "Seu santo nome em vão"! Acho que eu gostava daqueles castigos, cada vez falava mais!
-Não diz que você estudou em colégio de freiras! Eu também!
-Que coisa, onde?
-Minas.
-Ah, eu estudei aqui mesmo. Mas tinha uma professora mineira que eu adorava. Ela vivia me botando de castigo, um dia me botou no milho.
-Mas isso não era proibido?
-Era, e muito; além de me castigar ela me fazia prometer que não contaria para ninguém.
-Hummm... excitante, isso, hein?
-Pois é. Eu lembro até hoje da voz dela, do sotaque... até que era parecido com o teu.
-Mas eu não tenho sotaque!
-Você que pensa! Ninguém acha que tem. Irmã Anunciação também não achava que tinha.
-Mas que coisa, isso. As freiras me botavam de castigo, também, mas por que eu vivia conversando, não parava nunca. Tinha uma amiga com quem eu passava o dia todo, e elas viviam implicando, separavam a gente, diziam que era pecado falar tanto.
-Eu não tinha amigas, não; a irmã Anunciação implicava com todas, dizia que eu devia me preparar para o noviciado.
-Por que você não passa por aqui p'ra gente tomar um café?
-Ok, não estou fazendo nada mesmo!

Por via das dúvidas se depilou, tomou um banho caprichado e colocou uma calcinha nova.

 
A Rádio-Relógio e os Dinossauros


A questão já não era mais vida ou morte. Estar vivo de alguma forma era um erro, era inadequado. Ela tivera o profundo mau gosto de morrer incongruentemente jovem, de deixar muitos anos vazios à sua frente. Há pouco tempo era algo admirável de se ver num biquini (ou sem), e agora nada. Dentro em pouco, seu rosto seria visto pela ultimíssima vez que não fosse em fotos ou no filme do casamento. Ele não conseguia pensar em nada melhor para fazer que não fosse olhar, olhar e olhar, para aquela boca que na véspera fazia bolas de fumaça enquanto ele reclamava de mais um cigarro que ela fumava. Pensaram diversas vezes em divórcio, pois sua geração se separava a priori, era sempre a primeira solução. Continuavam tentando, porém, na expectativa de as coisas melhorarem. Mas, isso agora não fazia mais diferença. Nem arrependimento havia, que os problemas eram honestos. Agora ele tinha medo era de voltar para casa. Podia ir para a dos pais, mas sabia que se o fizesse, alguma tia daria o jeito de entrar na sua e apagar os rastros mais evidentes da passagem de Claudia por lá, e isso ele não queria, Queria sim era absorver tudo o que ainda sobrasse dela, sentir seu cheiro que se desvaneceria em breve, juntar cartas, papéis de bombom e lápis quebrados que contavam mais de uma vida que qualquer livro poderia fazer. No momento ele queria era acabar logo com aquilo, que enterrassem ou cremassem, não fazia diferença, mas que ele pudesse ir para casa, agora só sua, logo. Aquele desfile de piedade à sua frente parecia que tinha acabado; quem veio, veio, quem não veio, com sorte, não viria mais. No início, ele ainda achava divertido ouvir "Meus pêsames", de gente que não conseguia dizer um "Mas que merda", muito mais natural e simpático. Com o tempo, a brincadeira de tentar adivinhar se viria um "Meus pêsames" ou um "Meus sentimentos" cansou, e quando parou de chegar gente foi que ele pôde cair em si de vez. A hora ia avançando, o caixão ia ser fechado, e aquele rosto que ele vira acordar - ele calculara, num dos lapsos entre os cumprimentos - 1.108 vezes iria definitivamente ser tirado de suas vistas. Começava aliás a crescer no seu peito uma dor que ele adivinhava que não ia parar, pelo menos enquanto ele não chorasse alto, enquanto não enfiasse a cara no travesseiro, de preferência o dela, e perceber como o cheiro industrial de um shampoo podia se agregar aos odores naturais de uma pessoa e gerar tanta dor. Mais um colega de trabalho apareceu, desta vez se juntando à turma dos "Meus sentimentos" - justo ele, que na antevéspera se referia aos peitos numa revista masculina como "Caceta, olha só!". A dor alheia precisava ser cerimoniosa, não podia haver intimidade com a morte, não se sabe se por respeito ou por medo dela se animar, gostar e resolver fazer uma visitinha. Esse pensamento até o divertiria, se com o rabo de olho não visse aquela morta tão diferente, tão jovem, tão viva... teria alguma culpa? Um enfarte nessa idade era raro; diziam que quase sempre era fatal, mesmo, alguma coisa sobre falta de caminhos alternativos para o sangue, bombas que explodiam, coisas assim. Não fazia diferença se fosse câncer ou um tiro, pois o resultado seria o mesmo. Se ele vivesse dentro da expectativa de vida padrão, haveria mais uns bons 40 anos pela frente. Em termos lógicos, ele deveria refazer sua vida. Honestamente falando, o amor que os unia não se assemelhava a nenhum "Love Story" ou "Romeu e Julieta", era comum, vulgar, pouco prospectado por eles, mas era suave, calmo, tranqüilo. Mas agora era indecente pensar nisso com aquele corpo a poucos metros de distância, com várias movimentações fluídicas ocorrendo ainda. Um jovem viúvo gerava piedade, o que podia ocasionar perspectivas interessantes, como por exemplo Ana, sua colega de sala, que do outro lado da capela dirigia olhares prenhes de compreensão para ele. Será que se manteriam se ela soubesse que naquele justo momento ele especulava sobre a cor de sua calcinha? Isso o despertou, e fez com que ele desviasse os olhos de Ana e de Claudia (ou do corpo de Claudia). Seria Claudia quem estava ali, ou ela já se fora? Será que, caso fosse um espírito agora, ela poderia ler seus pensamentos? Na única vez em que ele estivera com outra mulher, ela telefonara justo na hora do primeiro beijo, o que estragou os seguintes (poucos) e o deixou especulando sobre se ela sabia o que ele estava fazendo. Nunca saberia, mas o conhecimento sobre a calcinha de Ana era mais exeqüível. Ele se imaginou perguntando a ela: "Lembra o enterro da minha mulher? Qual era a cor da..." Meu Deus, será que estava ficando maluco, ou havia uma ereção se encaminhando pela trama da cueca? Seria o fim de sua sanidade? Ele era absolutamente normal, não se enquadrava em nenhuma definição de psicótico, depravado ou algo assim. Droga, agora era o vizinho do 502, rapidamente se agregando ao grupo dos que não diziam nada, só davam um tapa no seu ombro e faziam uma expressão compungida. O que será que ele diria se soubesse que a lembrança da sua filha mais velha agora ajudava, e muito, aquela ereção? Um café talvez ajudasse, e foi à garrafa térmica ("Quem é que lembra de trazer essas coisas?"). 4 ou 5 mãos o impediram de se servir, tomando a iniciativa de fazê-lo. O copinho de plástico tinha um formato tão conveniente, tão agradável. Por que não era quadrado? Ou melhor, por que os japoneses tomavam saquê num copo quadrado? Será que não era incômodo? Bem, mas quem comia peixe cru... ele comera uma vez, e tinha a impressão de estar engolindo uma lagartixa oleada. A pimenta até era gostosa, mas no dia seguinte... um banheiro só, ele e Claudia se revezando... Claudia, caramba, que coisa! Morrer assim, dum jeito tão estranho, tão impróprio, subindo a escada do prédio e, no segundo seguinte, rolar por ela ("Sem um pio", segundo o porteiro) com uma ridícula penca de bananas ao lado da cabeça, os olhos ainda abertos. Ela parecia ter a mesma expressão que quando ele perguntara se ela queria casar-se. Nada escrito nos olhos, apenas uma certa perplexidade antes do "Sim". Não um "Eu quero", ou um "Vamos", mas um saxônico "Sim". Ela dizia "Sim" em alguns casos, como quando ele perguntava se queria mais vinho; nunca quando ele perguntava se ela tinha passado bem o dia, mas quando era uma questão quantitativa. Será que isso fazia alguma diferença agora? Ser assim ou assado fazia diferença quando se morria? Não em termos de Céu ou Inferno, mas em termos de modificar algo; pessoas que diziam "Sim" para um lado, pessoas que dizem "Hum, hum" de outro? Mas ela estava morta, e talvez quando chegasse sua hora ele não se lembrasse de perguntar essas coisas. Ela, com certeza, não o faria. Sua timidez era famosa, sua impossibilidade de se dirigir a um estranho era absoluta, então... mas e se houvesse algum parente esperando por ela "lá em cima"? Não, ela era tão jovem que nunca tinha passado pela morte de ninguém querido, deveria estar tremendamente sozinha, se encolhendo numa poltrona abraçando as pernas como fazia quando estava triste ou assustada, sozinha como jamais estivera, e ele não poderia fazer o habitual carinho na sua nuca, talvez nunca mais tocasse a nuca de ninguém, e as lágrimas agora turvavam sua visão. Acalmou-se com a visão do funcionário do cemitério, que se dirigia a ele. A hora estava chegando, tudo menos aquele sino terrível que anunciava o início do féretro. Será que "Féretro" se aplicava ao caso? Podia perguntar àquele senhor, que ele sabia ser professor de português, mas de fato não vinha ao caso. O caixão ia ser fechado, e nunca mais ele veria aquele rosto, ele não teria mais nenhuma importância dali a alguns poucos anos, não seria lembrado por ninguém, nada havia feito de notável, não deixara prole, não deixara um livro, seria um número num registro que aos poucos deixaria de receber cartas, sairia de listas, sumiria aos poucos, para nunca mais ser citado. No entanto, esse rosto dera beijos tremendos, dissera coisas lindas, não era justo. Enquanto ele vivesse, talvez houvesse algo, mas depois...

O sol estava se pondo, a Terra estava completando mais 18 horas de vida, se encaminhando para seu fim, que um dia viria. E amanhã Claudia seria tão antiga quanto Ben Hur, quanto um dinossauro, quanto a primeira ameba, quanto o BigBang, pois cada minuto que passa é um milagre que não se repete. Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre, a Galeria da Luz. Você sabia?





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