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Sunday, September 30, 2007

 
Quando eu era jovem, há muitos e muitos anos, estive numa festa em Santa Teresa. Santa Teresa, para quem não é do Rio, é um local, digamos, alternativo. Lá se fuma maconha e se olha feio para cigarro industrializado, lá se come alfafa, lá os suvacos das moças bonitas têm pelos, lá as pessoas são lindas e têm posicionamentos válidos, lúcidos e inseridos no contexto. Pois uma festa lá sempre teve seus atrativos, especialmente em épocas onde as moças eram mais ariscas. As de lá eram mais generosas ao distribuir seus favores mais íntimos. Na verdade não eram, mas a gente pensava que sim. Então, haver uma festa lá garantia sonhos lúbricos e olhos rútilos - de desejo ou maconha, o que fosse. Um amigo de um amigo foi convidado para tocar num evento, cometeu o desatino de dar o endereço e a festa foi invadida por meus amigos, todos sedentos por cultura. Ou por bebida grátis, não estava bem claro. O evento, diga-se, era vagamente sobre cinema, então aproveitei uma rodinha para mostrar minha cultura. Falavam de Glauber Rocha, eu tinha visto uma parte de um filme dele, o que me gabaritava a discorrer sobre sua obra. Foi o que fiz, tecendo minhas teorias e achando, pela expressão boquiaberta da massa, que estava agradando. Na verdade, as bocas abriram-se pela presença do próprio atrás de mim, que sem que o visse ouviu atentamente o que eu tinha a dizer e em seguida me esculhambou em grande estilo, dizendo que eu não tinha entendido nada, o que, convenhamos, era a mais pura verdade. O episódio me agastou um pouco com a obra Glauberiana, me impedindo desde então de ouvir seu nome sem ruborizar-me e suar frio. Pouco depois ele morreu, de forma no mínimo estranha, e ficou sendo um ícone definitivo. Um ícone que me esculhambou, o que o tornava mais icônico ainda.
O mundo gira, a Lusitana roda, e o destino, desta vez generoso, me levou a conhecer uma criatura doce, de uma vivacidade, ahn, Glauberiana: Dona Lucia, mãe dele. O “destino” se chama Luciana, estagia no arquivo no Tempo Glauber e participa de momentos muito interessantes de minha vida. Dos mais, certamente, mas desta vez se superou: com esmero desusado convidou-me a participar de um evento chamado “Noite Contemporânea”. Bem, esse tipo de festa me lembra a queda do Império Romano, performances me fazem pensar que era isso que rolava em Gomorra, em suma, festas alternativas me dão urticária. Mas, para meu total e absoluto pasmo, me deparei com uma festa agradável, gente de banho tomado, inteligente, e, melhor de tudo, Dona Lucia. E ela, sorry periferia, me convidou para assistir à reestréia de “A Idade da Terra”. Dona Lucia tem uma história de vida épica, comeu o pão que o diabo amassou sem reclamar do sabor, passou por coisas incríveis e, contrariando Guevara, não só não endureceu como não perdeu a ternura. O que fazer? Não havia como não ir, mas tinha medo que a qualquer momento Glauber aparecesse e me expulsasse do cinema ou algo assim. Mas fui.
Ao chegar, fui surpreendido pela apresentadora da festa, a diretora do Rio Cine Festival, Hilda Santiago. A conheci, priscas eras, como Hilda Chaves. Explicação:
1984, governo militar de João Figueiredo. O vice era Aureliano Chaves, que quando o titular foi se operar do coração, virou presidente em exercício. O diretório Acadêmico de Comunicação da UFF estava acéfalo: seu presidente desaparecera, ninguém sabia bom onde diabos ele se metera, então Hilda, já naquela época uma pessoa mobilizadora e ativa, virou presidente em exercício: Hilda Chaves, portanto. Aquele período foi conturbado: a ditadura estava no fim, aparentemente, mas o general Newton Cruz (Nini, para os íntimos) não parecia satisfeito com isso, e foi responsável por medidas de emergência em Brasília. A nação prendia a respiração, o pacato general mandava um repórter pedir desculpas em frente às câmeras, e a democracia corria o risco de morrer antes do parto. O DA de Comunicação, então, se juntou às forças do bem e organizou um protesto que fez tremer a ditadura: um panelaço. Em determinada hora, todos bateram panelas enfurecidamente. O episódio merece uma digressão: meu avô contava que no interior do Pará, quando da passagem do cometa de Halley no início do século 20, as pessoas batiam panelas para espantar o bicho. Bem, o panelaço da UFF deu tanto resultado quanto o do cometa, então partimos para algo verdadeiramente sensacional: um protesto durante uma palestra do grande repórter político Carlos Castello Branco. Foi redigido um texto, texto esse que tinha até “outrossim” escrito nele, para ser lido no palco. Eu e Hilda discordamos do texto, o achamos, no mínimo, um horror, mas fomos voto vencido, viva a democracia. Chegando ao auditório, lotado, o comando do DA (do qual eu era apenas um tarefista, pintava os cartazes) resolveu por bem que não tinha cabimento entrar todo mundo no palco. Que fosse só a Hilda. Talvez a presença de dois generais ao lado do reitor tivesse ajudado esta decisão, não sei, mas o fato é que ela “teve” que ir. Ora, sou um cavalheiro. Covarde, mas cavalheiro. Não podia deixá-la sozinha, então fui junto. Leu-se a desgraça, com outrossim e tudo, e o Castello deu-nos um aceno de cabeça, aprovador - acredito que mais pela atitude que pelo maldito outrossim. O olhar do reitor foi um pouco menos simpático, e o dos generais foi caloroso. O calor do inferno, para ser mais exato. O fato é que nunca mais falei com Hilda, e tive a oportunidade de abraçá-la num momento muito especial para ela, onde ela novamente subiu ao palco mas desta vez para uma tarefa bem mais agradável - e sem outrossim - anunciar o “A Idade da terra”.
Mas, ao filme. A filha de Glauber, Paloma, nos informa que era desejo dele que o filme não tivesse seus rolos numerados. Assim, o exibidor poderia participar da criação da obra, resolvendo que pedaço colocar em cada parte. Isso já me causou um certo arrepio. Gosto de filme com mulher pelada, carro que explode quando bate e música romântica. Comecei a desconfiar que não haveria nada disso. Acabou que houve coisa pior: o pinto do Pitanga balançando ao seu dele bel prazer. Nenhum carro explodindo. Mas o filme (e nele havia uma entrevista com... Carlos Castello Branco!!!!)era um filme que não era um filme: era um delírio, a coisa não fazia sentido, a câmera balançava... aí tive um insight: ok, a produção não era rica, mas deveria haver grana para comprar um reles tripé, que diabos (e não estou me referindo ao Pitanga, evidentemente)! Se o cara resolveu que ia sair tremido, algum motivo havia. O texto... idem, Glauber era um escritor talentosíssimo, um texto primoroso. Se queria aquele negócio maluco, não seria por falta de repertório. Aí lembrei de Picasso, que pintava maravilhosamente bem em qualquer estilo; tinha conteúdo para fazer o que quisesse, escolheu deformar o que via e mudar tudo. Glauber inventou uma linguagem, o que tinha a dizer estava ali no meio, era o caso de pescar. E uma bela hora ele nos diz que há países capitalistas pobres, países capitalistas ricos; há países socialistas pobres, e os há ricos. A verdadeira divisão do mundo era (e é) entre ricos e pobres. E aquela estética, sem imagens grandiloqüentes, cortado a facão, era a sua forma de mostrar sua opção pelos pobres. E no filme se instava, a todo momento, a que se matasse Brahms. Brahms era vivido pelo grande Maurício do Valle, e ele todo era nossa elite. Não mataram Brahms, mas mataram Glauber.
O filme terminou, aplaudidíssimo. Me perguntaram se havia gostado do filme, e me dei conta que não só não gostei como não é para se gostar: não se gosta de um tapa na cara. É um filme para se esbravejar, para se tirar a espada da cinta e com um ginete na mão sair derrubando essa canalha que ao longo dos anos diz que nos governa. É filme para incomodar, para nos deixar remexendo na cadeira, para dar pesadelo de noite. E foi aplaudido.
Juro que o vi novamente atrás de mim, mas desta vez dizendo:
-O que é que estão aplaudindo? Não é para aplaudir, ninguém entendeu nada, nada, nada!





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