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Monday, August 27, 2007

 
Sóis


O que ele estava fazendo ali? Uma coisa é estar dirigindo por uma estrada vazia, numa noite sem lua, ouvindo música dos anos 70 no rádio; outra, muito mais estranha, é, no momento seguinte estar sentado num areal (seria areia, mesmo?), num entardecer com dois sóis. E, enquanto isso, continuar ouvindo a música (Creedence) como se ela estivesse num cômodo ao lado.
Era um mundo estranho. Sem saber como sabia, tinha consciência que aqueles sóis tinham órbitas excêntricas; como um era muito mais afastado do planeta que o outro, havia 3 momentos distintos do dia: dia, noite e penumbra. E que essa tríplice condição fazia daquela terra uma terra diferente da nossa; enquanto na Terra tudo era dual, naquela tudo era tríplice. A própria matemática; na Terra, os computadores (ele tinha lido em algum lugar) nada mais eram que usuários de códigos binários; no fim das contas, tudo que eles faziam era na base de instruções zero/um. Naquele planeta, não. O caráter do povo, moldado por séculos de um dia tríplice, exigia uma terceira condição. Seus computadores utilizavam um código que continha um terceiro pedaço, imponderável, que era o talvez. Utilizava zeros, uns e zeros ou uns; Isso gerava máquinas falíveis, o que era perfeito; se uma máquina "infalível" falha (e isso sempre acontece), o resultado é uma catástrofe. Se, porém, a máquina a falhar é francamente falível, há a necessidade de outra máquina (igualmente falível) para checá-la. Havendo o erro, estatisticamente previsível, nenhum problema terá maiores conseqüências.
Isso era o resultado de uma cultura evidentemente superior (ou completamente louca, claro), que tentava imitar Deus de forma mais humilde: do mesmo modo que Ele não criara nada perfeito, também aquele povo não tentava fazê-lo. Isso era estranho, para ele: uma cultura que criava coisas que sabia que não iam funcionar direito. Mais estranho ainda talvez fosse ele não se espantar com o fato de estar ali, sozinho, num deserto (areia?) avermelhado, com apenas um diminuto sol no horizonte àquela altura. Calculou que sua sombra devia ter uns 15 metros naquele momento. E, estranho, sabia que estava no meio de uma movimentada cidade. O fato de não ver ninguém não o preocupava; ele sabia que aquele povo estava fora de seu espectro visível. Aliás, em função do som do rádio do seu carro ( os Beach Boys?) ele desconfiava que não estava ali de corpo; talvez uma parte dele ainda estivesse dirigindo, e ali só estivesse sua consciência, ou algo assim. O diabo é que ele podia sentir a tepidez daquela (areia?) finíssima e avermelhada entre os dedos. Será que sua consciência tinha um tato tão bom assim? E, principalmente, por que? Ou alguém achava que ele ia sair dali (dali aonde?) e disparar contando p’ra todo mundo? Aliás, contar o quê? O que de fato estava acontecendo? Será que ele tinha virado uma espécie de Gregor Samsa interplanetário? Será que aqueles que o levaram para lá iriam se mostrar? Será que ele voltaria, será que estava de fato em algum outro lugar ou apenas enlouquecera? Um acidente, e ele estava em coma? Não, ele sabia que não. Ele sabia que estava ali (aonde?), senão de corpo, pelo menos num outro estágio (novamente um terceiro estágio?), aprendendo. Para quê? Para ser um novo Messias, ou a piada da semana? Ou bastava àqueles seres que alguém soubesse, que só uma pessoa soubesse? Então talvez fosse melhor esperar para ver.
A música já estava irritando. Não lhe parecia apropriado estar revolucionando a experiência humana enquanto ouvia o Abba. Imediatamente a música foi substituída (Rhapsody in Blue). Como tinha aquele cd no carro, ficou sem saber se no fim não fora ele mesmo quem havia mudado a música. Mas estava melhor assim. Nisso, começou a ver uma história (aonde?) como um filme educativo, sem som (só o do Gershwin do seu cd player), uma história, que contava de coisas muito antigas, que ele não conseguiria jamais repetir muito menos esquecer, pois aquela história era a sua vida, a vida de suas células, de sua alma, de suas vidas, que era a de todos, que era a do Mundo, que era a do Universo, que era a de Deus. E que aquele povo queria apenas compartilhar com alguém esse conhecimento, tão recente, tão espantoso até para eles. E que fora ele, numa estrada sem luz, o escolhido para ser feliz, numa obra do acaso que agora descobria que não existia. Era tudo muito confuso. Talvez nunca mais lembrasse de nada daquilo, mas não se preocupava.
Estava vendo agora uma criança numa biblioteca. Ela ficava na ponta dos pés tentando alcançar um livro de lombada dourada. Não conseguindo, empilhou outros livros, subiu nestes e pegou o que queria. Não conseguia ler direito; estava escuro, o livro era pesado, e a criança ainda era muito pequena, no final das contas. Mas estava com ele na mão, e isso era um excelente começo.
Ultrapassou um caminhão assoviando o Bolero de Ravel.





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