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Friday, March 23, 2007

 
Uma Fábula (p’ra EMC)

Há muitos e muitos anos a terra era chata. Redonda, mas chata. E além de chata era entediante, nada acontecia. Vez por outra um navio caía do mundo, mas até ese tipo de espetáculo cansava. Dragões voavam de lá p’ra cá, mas seu fogo já não inspirava nem receio nem admiração, dizia-se que até domesticados haviam sido em determinada aldeia, senso usados para calefação e pequenos churrascos dominicais. Banho não, que estes não aconteciam lá. Em outra as mulheres haviam expulsado os homens de seus leitos, preferindo a companhia umas das outras, e em outra mais distante os homens haviam expulsado suas mulheres, preferindo dormir sós. E sobre todas as aldeias pairava aquele imenso, palpável e úmido tédio.
Numa aldeola da Britânia, porém, uma moça resolveu insurgir-se contra aquilo. Não se dava conta da coragem necessária para ser quem era, achava que suas conquistas eram ralas e comezinhas. Se escalasse o Monte Alto, diria que o tempo a havia favorecido; se atravessasse o canal a nado, diria que as correntes a levaram; se ganhasse o torneio de matemática diria que havia caído por sorte só o que ela sabia; se fosse declarada Miss Terras Inóspitas diria que as concorrentes haviam desistido. Cansou-se, mais de si que dos outros, e foi.
Cruzou os mares conhecidos, atravessou um outro mais ou menos conhecido, um outro absolutamente desconhecido e aportou em novas terras, justo onde o Mundo começava a curvar-se, preparando-se para se tornar uma esfera num futuro próximo.
Mas a verdade é que ela tinha medo, pois estava só. Estava só e para falar a verdade não gostava muito da própria companhia, pois, como já foi dito, não se conhecia. Sócrates já havia sugerido o contrário, mas ela não sabia disso e se mantinha triste num mundo inóspito e sem espelhos. Um belo dia, entretanto, se curvou para apanhar uma flor, ou talvez tenha apenas tropeçado, e se viu refletida na água do rio que por ali passava, e assustou-se. Quem era aquela moça bonita, de quem era aquele olhar vívido que ela imaginava baço? Não que a moça fosse burra, ela sabia muito bem que a imagem era ela mesma, o espanto foi metafórico: o que a assustou é que aquela imagem não correspondia ao que ela esperava. Subitamente descobriu que não sabia em absoluto o que era; seria afinal quem? O que ela via no espelho d’água ou o que ela via olhando para dentro? Aterrorizada, descobriu que nem para dentro havia olhado, apenas se contentara em não pensar nisso. Cansara-se do tédio, e tomara uma atitude: isso a fazia diferente? Era diferente antes, o era agora ou não o era de fato, era tudo uma grande quimera?
Os anos se passaram, a terra esferizou-se, descobriu-se o valor mais aproximado de pi, os dragões foram extintos e essa história será colocada numa garrafa e jogada ao mar, na esperança que ela um dia a encontre, leia e acredite em quem é. Nesse dia ela vai olhar em volta e descobrir, estupefata, que o mundo ficou plano de novo, apenas para saudá-la.
E com isso derrubando metade da humanidade no vazio, mas bem-feito p’ra eles!





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