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Tuesday, April 25, 2006

 
Nos Bares da Vida

Aos poucos vou escrevendo aqui minha autobiografia. Sou luthier de profissão. O que diabos é isso? Simplificando, a luteria é a arte de construir e consertar instrumentos de corda, no meu caso violões e família. Mas antes me dediquei a tocar violão. Primeiro o dito “popular”, depois o dito “clássico”.
Tudo começou com as más companhias, meus amigos de adolescência, a começar pelo já falecido Galdino (depois falo mais dele), cultuavam música. Eu mesmo não ligava a mínima, mas como passarinho que anda com João de Barro vira ajudante de pedreiro, acabei me metendo a tocar. Cedo percebi duas coisas: não levava muito jeito para a coisa, e as mulheres gostavam de quem tocava violão. Este é um ponto delicado; tocar para agradar as moças exige timing perfeito. Há um período, uma espécie de dança do acasalamento, em que você lança feromônios musicais no ar. Há que saber a hora exata de parar, pois se não, você vai fazer fundo sonoro para romance dos outros, e chuchará o dedo o resto da noite. Como se vê, era uma cafajestada, mas estávamos nos anos 80, as coisas estavam começando a acontecer e havia urgência no ar. Voltando à cafajestada, havia táticas; quando se tocava em barezinhos, por exemplo – verdadeira praga dos anos 80, havia 4 em cada esquina – o lance era destacar uma favorita e uma estepe, caso falhasse com a primeira. Para a favorita mandava-se olhares lânguidos, e havia que escolher a trilha sonora correta. Por exemplo, tocar “Eu Sei que Vou te Amar” e, ao invés do Soneto da Fidelidade, olhar nos olhos da vítim… digo, eleita, e declamar: Ai, minha amada, que olhos os teus… mas com um olhar que afirmasse que aquilo estava saindo na hora, e para ela. Certo, não era muito honesto, mas e a Guerra do Paraguai? E a CPI do Banestado?
Confesso que era um mau cantor. Péssimo, aliás. Pavoroso, tão ruim que poderia até fazer sucesso hoje. Não afinava sequer uma nota. Meu afinador era um gole de vodka, ou Martini (doce) ou Cuba Libre. Não sei se melhorava a afinação, mas com certeza reduzia o senso crítico, o que dava rigorosamente na mesma. Mas havia um porém: sempre fui (Surpresa! Surpresa!) um pouco neurastênico, e pendurava uma placa no pedestal do microfone com os dizeres:
NÃO TOCO:
Espanhola
Manoel o Audaz
Andança
Travessia
e outras, para evitar ter que tocar cada uma daquelas músicas 18 vezes por hora. O pessoal não era muito criativo. Tinha sempre uma moça que dizia:
-Ah, mas p’ra mim você toca…
E eu, simpaticão:
-Especialmente p’ra você, eu NÃO toco!
E não tocava. Mas a coisa era meio esculhambada. Uma vez uma moça foi se queixar ao dono que eu não havia atendido o seu dela pedido. A resposta foi histórica:
-E você quer que eu faça o quê? A gente não paga nada a ele mesmo!
Mas o bom era tocar com o Defunto Galdino. Ele era um exímio violonista, e éramos muito parecidos na penumbra. Revezávamos às vezes, e ele nunca sabia a hora de parar. Ajudava muito, mas eu tinha que sair rápido do bar antes que minha acompanhante percebessem que eu era “o outro”.
Chamo-o de Defunto Galdino porque ele, adivinhem, morreu. E na missa, o padre, um completo imbecil, só se referia a ele assim. Vocês podem achar meio frio me referir desta forma a um grande amigo, mas acreditem: ele faria muito pior se fosse eu que tivesse dançado.
E foi ele que me iniciou no violão clássico. Um grande didata. Por exemplo, deve haver da parte de quem toca cuidado para que o polegar da mão esquerda fique oculto, não fique subindo à toa. Ele gentilmente nos firmava isso na mente, pois a cada vez que o fizéssemos ele enfiava o cigarro aceso no dedão da gente. Por conta desta e de outras características resolvi ser autodidata.
Meu avô foi minha primeira platéia. Aficcionado por Dilermando Reis, para ele toquei a primeira música que aprendi sozinho: Abismo de Rosas. Até que o que tocava em alguns momentos parecia com a música… continuei, e descobri que uma Universidade particular do Rio de Janeiro oferecia bolsas aos mais bem classificados em seu vestibular para sua nova cadeira de música. Inteligentemente, larguei jornalismo numa universidade federal e fui para lá.
Já nesta época eu tinha uma idéia muito bem definida do que queria em termos musicais. Para quem não está familiarizado, o meio do violão clássico é capaz de ficar horas discutindo se a unha do dedo médio deve ter 1 mm ou 1,5 mm. É coisa para neurótico em último grau. Pois nunca conseguia tocar como imaginava, ficava sempre pior do que esperava, e isso ia me deixando nervoso. A perspectiva de tocar em público me deixava de desconfortável a em pânico. E veio o dia do primeiríssimo recital.
Seria um recital coletivo. Todos os alunos tocariam, e o doido do professor queria que eu fechasse a primeira parte. Não adiantou me recusar. Para facilitar minha vida, na véspera um outro professor resolveu me ajudar e disse que eu fosse à sua casa, ele me ouviria. Fui, toquei, e ele começou a gritar: -Isso está um horror, você vai passar a maior vergonha de sua vida!!!! Dá para imaginar a paz de espírito com que recebi estas gentis palavras. Mas não havia como desistir, valia nota e eu tinha uma bolsa. Chegou, como disse, o dia.
O recital ia bem, ouvindo os colegas eu ia me acostumando à idéia, e apesar do auditório ser gigantesco, havia umas 30 pessoas no máximo, praticamente todos alunos de música, mesmo. Hummm, até que não ia ser difícil. Houve uma mudança, alguém que não havia chegado chegou, ia tocar antes de mim. Adorei, pois tinha acabado de tocar um grupo que fez um sucesso retumbante, mesmo mais calmo achei que seria demais sucedê-los. O colega atrasado, então, entrou e tocou, bastante bem. Aí veio a minha vez.
Existe um Deus no Céu, mas também existe um diabo no inferno, e este avisou à prefeitura do Campus que um espetáculo de alto nível estava se desenrolando no auditório. O que fez a administração? Mandou liberar todos os alunos que estivessem em aula para assistir-nos. Então, eu saí da platéia e entrei nas coxias deixando às minhas costas uns 30 gatos pingados. Como num episódio de Além da Inaginação, ao entrar no palco, me vi diante de mais de 500 pessoas, todas gritando à minha entrada. Acho que foi ali que meus cabelos embranqueceram. Com alguma dificuldade me arrastei até a cadeira, me coloquei em posição, não rezei pois não conseguia lembrar de nenhuma oração, e me preparei para tocar. Respirei fundo, e fui. Toquei meio anestesiado as primeiras músicas, não faço a menor idéia de como me saí. Seriam 3. Minha música de encerramento era uma canção catalã, em duas partes, ambas no mesmo tom, Ré Maior. Eu deveria tocar a primeira parte, a segunda, repetir ambas e fim. Durava menos de dois minutos. Toquei a primeira parte, toquei a segunda , e ao voltar à primeira, deu um branco. Como era tudo no mesmo tom, repeti, e lembrei o que havia esquecido, e toquei. Mas toquei fora da hora, o que me fez perder a emenda para chegar ao fim, e me vi tocando de novo o início. Não havia jeito de conseguir lembrar o raio da música, e toma de tocar um pedaço de uma parte, um pedaço da outra, na esperança do público não perceber. Chegou num ponto em que não agüentei: fiz blém, BLOOOOMMMMMM, dois acordes de encerramento, e que se danasse o mundo que eu não me chamava Raimundo. Fui aplaudidíssimo, e acho que percebi um certo suspiro de alívio por parte da platéia.
Ao sair do palco, a organizadora do recital me mostrou o relógio:
-Essa música levou 6 minutos e 23 segundos. Deve ser um novo recorde.
Há uma chance de ter sido este um dos motivos que me levou à luteria.

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