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Tuesday, November 15, 2005

 
Ao Vivo


-Estamos aqui nessa festa maravilhosa, na casa do Conde Scarpelli, no Morumbi. Casa não, que isso aqui é um palacete. E, na nova fase de nosso programa, cobriremos a festa ao vivo, entrevistando todos os convidados, cada um mais chique que o outro. Voltamos depois dos comerciais.

-Porra, Valtencir, vê se pára a câmera em mim! Tu fica olhando pras bundas dessas vagabas e me tira do foco, caramba! Eliete, me arruma uma bebida aí. Como vai, Condessa? Belíssima festa, belíssima. Meu programa vai até arranjar um patrocinador mais fino depois dele; é, chega de "Supermercado Batatais, é barato e vende mais"... telefone? P'ra mim? Obrigado, Condessa.

-Suzana? Por que foi que não ligou para o celular? Ah, é, esqueci de ligar ele. Pronto, liga p'ra lá. Não, não gosto; tenho a impressão que esse pessoal acha que se me deixar sozinho num cômodo eu vou roubar a prataria. Não, só consegui pegar um cinzeirinho. Mas o que é que você quer? Por que não pode esperar? O QUE? Como "nunca mais" ? Assim, de repente? É alguém que surgiu? Espera, não desliga, droga! Como é que você acha que eu vou ficar? Depois de um ano um pé na bunda sem mais nem menos? Suzana, não desliga, pombas! Peraí que tá quase na hora d'eu entrar no ar. - Já vou, Eliete! Manda o Valtencir ir mostrando a casa p'ra fazer hora! -Me dá o número de onde você está, amor. Tá, tá, não te chamo mais assim, mas me dá o número! -Já vou, porra! Calma!- Me dá o número, Su... Suzana? Suzana????!!!!!!

-Estamos de volta depois da mensagem dos nossos patrocinadores. A festa acabou de começar, ainda falta chegar muita gente, mas a noite promete. Vamos dar uma palavrinha com nossa anfitriã, a Condessa Scarpelli. -Condessa, essa festa é para comemorar o que exatamente? Conte para nossos espectadores. -Eliete...Eliete... me arranja uma bebida, rápido! - Muito interessante, Condessa... Bodas de Ouro... Ah, de Prata, claro...Ra rá... seria impossível, ra rá. E esse quadro, com essas bandeirinhas de São João...é um Portinari, não é? Ah, claro, Volpi, foi o que eu disse. Mas se a senhora puder ir dizendo o nome dessas belíssimas obras de arte enquanto nosso cameraman mostra para os telespectadores, que devem estar ansiosos para ver tudo, tintim por tintim. -Eliete, arruma outra, correndo, que dá tempo antes de chamar o comercial. - E qual é a sua peça predileta, Baron...Condessa? Dinastia T'ang, diz a senhora? Usavam para tomar refresco, ra rá?! Quanto????? E como foi que esse dinheiro saiu do país, Condessa? Ra rá, brincadeira, brincadeira...Mas, antes de chamar os comerciais, majestade, gostaria de passar-lhe às mãos um presente de nossos patrocinadores, o Supermercado Batatais, que é barato e vende mais: um vale compras no valor de 100 reais, não esqueça de levar sua identidade na hora da compra, mais essa bolsa de produtos, todos em promoção na loja da Moóca, contendo creolina Florosa, biscoito maizena Napoleão e absorvente íntimo Queen, o amigo certo da hora certa.

- Eliete, minha filha, você tá me sacaneando; me batizar um uísque desse jeito?! Era vodka? Bom... liga pra alguém e me descobre o telefone da Suzana. Sei lê, porra, te vira! Liga pra polícia, p'ro SNI, p'ra tua mãe mas liga p'ra alguém, porra! Tá, eu sei que tá voltando!
- Depois de nosso querido câmera mostrar um pouco, só um pouco desta esfuziante festa, vamos nos colocar numa posição estratégica para melhor focar quem chega. E vejam só, espectadores, se não é o grande Romeu, da dupla Romeu & Hamlet; grande Romeu, e teu irmão, vem também? Oh, Hamlet, você está aí; não te vi, tão pequenininho, dá cá um abraço. Vamos ver, um doce para quem adivinhar o verdadeiro nome do Hamlet! Isso, vão pensando aí que já já a gente volta!

-Porra, Clervásio, me chutar no ar? Eu ia dizer que teu nome era Roberto, porra! Vou mancar a noita toda, viado! Eliete, cadê a porra do uísque, minha filha? - Como está, condessa, novamente passando por aqui, não é? Pode checar a prataria, rá rá, está tudo no lugar! - Eliete, vou roubar uma porcelana só pra sacanear essa jararaca! E minha ligação? Ai, caramba, já está na hora de novo?

- De volta aqui da festa que está agitando São Paulo, e respondendo à nossa pergunta: qual o verdadeiro nome do Hamlet? Lá vai: é Ninon! Sim senhores, N-I-N-O-N! Tão másculo! E ainda dizem que a mãe preferia menina, que absurdo! E agora chega a nossa querida, primeira e única, Cleópatra Campelo, a rainha da noite de Sampa; uma palavrinha para seus fãs, Cléo! - Conseguiu, Eliete? Me dá aqui. Eu sei, me dá, porra! Meu bem, meu bem, não sai da linha que eu já falo com você. Quem? Cupello? O que é que você est... - Muito obrigado, Cléo, tenho certeza que nossos espectadores adoraram saber essas novidades, um beijão, e já já a gente volta, direto da Mansão Scarpelli.

- Que é, Eliete? A Cléo estava sem voz? Dane-se a Cléo, quero que ela... manda ela parar de chorar e me dá um Gin, porra! - Alô, Cupello, o que é que você está fazendo aí com a Suzana? Tua mulher estava aqui agorinha mesmo, e... O QUE??? Chama ela aí, ela vai ter de me confirmar de voz vi, de viva-voz! - Eliete, outro uísque, porra! - Como, ela não quer falar comigo, chama ela, caramba! Posso ser corno, mas ainda sou o marido dela! - Porra, Eliete, manda o Valtencir mostrar umas bundas e pára de me encher o saco! - Suzana, meu amor, fala comigo, fala! Sai da linha, Cupello, deixa ela falar! - Já vou!

- Voltamos aqui para esta belíssima casa no Pacae... Morumbi, sempre recepcionando os convidados que não param de chegar! Ora, se não é Hamlet querendo falar de novo conosco! Nada disso, meninão, você já falou hoje AI MINha perna! desculpem, senhoras e senhores, dei uma topada, não foi nada. Agora estamos com o próprio Conde Scarpelli, quanta honra, majestade! Sim, eu sei, mas seu porte é majestoso, é ou não é? Vamos perguntar a todos: o conde é majestoso ou não? Todo mundo: ÉÉÉÉÉÉÉ!!!! Então, eminência, viu como é bom ser querido? Aliás, cá entre nós, o senhor está em ótima forma, aposto que a condessa anda bem contentinha... o que é, Eliete? Comerciais? Sim, e numa oferta dos Supermercados Batatais, onde você compra mais, e do absorvente íntimo Queen, agora com novos sabores! Fragrâncias, fragrâncias! Já voltamos.

- Conde, conde... cadê meu uísque, Eliete? Como não, me dá a porra do uísque, caramba! Ou quer que eu beba direto do gargalo? Cadê o celular... Suzana, meu amor, fala comigo... Zaninha... faz assim com teu nhumnhum não, mozinho. Fala comigo... fala, vai... FALA COMIGO, SUA VACA! - Que é, Eliete, dane-se que estejam olhando, sai p'ra lá, Clervásio, minha perna já tá toda inchada, Suzana, fala comigo, por favor! Não desliga, não des... Alô, Suzana? Fala p'ra esse viadinho do Cupello prestar bastante atenção na TV, tá bem? Cadê o gelo, Eliete? Ah, não tinha visto, me dá outro uísque; era gin? Qualquer porra, minha filha, qualquer porra!

- Animadíssima a festa, não pára de chegar gente, e quem nós vemos, saindo do toilette? Madame Zoraya Cupello! Que prazer encontrá-la aqui! O senhor seu marido, veio também? Coitado, gripe forte? Pelo menos a senhora está bem acompanhada, belo rapagão que está com a senhora, é pelo menos o dobro da altura do Cupello e metade do peso, hein? Ra rá rá! Algum parente? A senhora estava tão próxima dele, que pensei que fosse seu irmão, sei lá; a gente só via os bíceps dele subindo e descendo, pareciam três, não, dois morrinhos. Mas cá entre nós, os boatos sobre a falência da corretora do Cupello, têm fundamento? Como que boatos? No Brasil inteiro só se fala que amanhã todos os investidores vão fazer uma manifestação em frente à casa de vocês e exigir o dinheiro que investiram! E ele debilitado por aquela doença que ele pegou na Suécia, parece que as injeções são tão doídas! Como, Zoraya, aonde é que você vai? Peraí, conta p'ros nossos tepeslec... teleskep... ouvintes a respeito daquele filme que você fez nos anos sessenta, sobre o naturismo nas ruas... Zoraya, volta, minha filha, quer dizer, madame... estranho, senhoras e senhores, que Madame Zoraya tenha resolvido partir tão rápido. Voltamos logo após os nossos comerciais.

- Eliete, porra, cadê o treco? Sei lá, qualquer bosta... ÁGUA NÃO!! Qualquer coisa, menos esse líqüido nefando! Vem cá, Valtencir, você é meu amigo. Valtencir, porra, olha p'ra cá que eu tô falando com você, parece que eu tenho mau-hálito, porra! Olha p'ra mim, Valtencir, você é meu único amigo, tá todo mundo a fim de me derrubar, essa Eliete fica regulando minha bebidinha e... - Já? Como finalizar? Eu tenho que falar com meus amigos primeiro, eles são tudo gente boa!

- Oi, pessoal de casa! Estamos aí, com esse monte de gente boa, e agora... ARCEBISPO! Vem cá, santidade! Uma palavrinha para seu rebanho! Cá entre nós, como é que o senhor recebeu a notícia do aborto que a filha da Condessa fez, hein? Vai p'ro inferno ou não vai!? Ra rá! Brincaceira, excelência, brincadeira! A condessinha usa camisinha, rá rá rá! Sem camisinha, só quando casar! Rá rá rá! Já vai, santidade, mas acabou de chegar! Grande sujeito, esse padre! Já, Eliete? Voltamos logo, num patrocínio do Mercadão Batatais, que vende bem demais.

- Porra, Eliete, tá reclamando do que? Eu tô na maior fossa, disfarço e você fica me recriminando? Valtencir, pára de olhar p'ra bunda do Hamlet e diz se eu não tenho razão. Quem, a Suzana no telefone? Agora quem não fala sou eu! Manda ela enfiar o telefone no Cupello e me dá outro uísque, porra! Não chateia, o Conde tá adorando, talvez eu até devolva o saleirinho de prata.

- Voltamos sob o patrocínio da Creolina Florosa; em cada vaso, uma rosa; a creolina Flo-ro-sa! Garçon, meu querido, um uisquinho para o seu camarada aqui que está sequinho, sequinho, e atenção: foi encontrada aqui no salão uma receita médica em nome de Suzana Botelho; como pode ser importante, dona Suzana, não deixe de comprar seu remedinho: Hemorro-bye! Aqui o Doutor Sepúlveda pode até nos esclarecer; vem cá, doutor, esse remédio é para passar aonde? AONDE, DOUTOR? Nossa, que grosseria! Uma pergunta tão simples, se não sabe é só dizer! Ah, nosso querido conde! Vem cá, garotão, vem cá, fica juntinho, assim; diz aí, esse uísque, é batizado ou muambado? Tem nota fiscal disso tudo aí, hein? Rá rá rá! Vem cá, Conde, vem cá, peraí, que é, Eliete? Nenhum problema, o Conde é boa-praça, o Brasil inteiro pode ver. Aliás, Conde, é verdade que o senhor é um cantor de banheiro da melhor qualidade? Canta um pouquinho aí p'ra gente ver, vai! Oh Clervásio Ninon, vem cá cantar com o Conde, vem fazer a Ai, Porra! Minha canela, Hamlet! Desculpa, Conde, volta, deixa a Eliete trabalhar e me traz um uisquinho, pleeeaaseeee... Valtencir, mostra umas bundas aí, vai! Volto já, pessoal!

- Que é. Eliete, porra! Eu batendo o maior papo com o Conde e você aí, fazendo gesto de cortar o pescoço! Cadê o uísque, porra? Porra! Porra, sei lá, porra. Já volto, vou dar uma mijada. - Que é, madame, qual é o problema? Não posso mijar, não? Então levanta daí, porra! Você aí sentada no maior conforto aí e eu querendo mijar feito um louco! Valeu. - ELIETEEE! O papel higiênico daqui é do cacete, tem florzinha e é cheirosinho, vou te levar um pedaço! - Fala, Conde, vocês tratam bem o de trás por aqui, hein? Não fura fácil, não? Tão fininho... volta aqui, Conde. Sujeito esquisito! Oh Condessa, como é que é? Tá gostando da festa? Não, vou ficar até o fim! Olha, se fôr usar o vale-compras vai bem vestida, que eles fotografam os ganhadores e mostram na televisão segurando embalagem de creolina, além de encherem tua boca de biscoito. Condessa, vem cá, é só eu lavar a mão, não é porque eu apertei a sua, não, é que eu tinha esquecido antes, vem cá! - já vou, Eliete, já vou! Café? Deus me livre, me dá um licorzinho que tá bom.

- De volta outra vez, pessoal; estamos aqui, ao vivo, e... atenção, meu celular está tocando! Nada disso, Eliete, um bom repórter não tem segredos com seu público, me dê ele aqui...Suzana, minha querida, que bom! Dê uma palavrinha no meu microfone para os telepres... essa palavrinha não serve, meu bem; tenta outra... também não, lindinha! Ouvintes, vejam só; em algum lugar do meu bolso tem uma foto... 'xa ver... aqui! Vejam esta foto, senhores: tirada em nossa lua de mel... ela era linda, não era? Esses cabelos, ainda sem tintura, a cintura, ela tinha uma, sim; ela urrava, senhores, ela urrava, e agora? O que resta agora daquela paixão, que nos fez ser expulsos de um restaurante na Grécia, que me deixava as costas em carne viva? Sim, senhores, não tenho vergonha de chorar; porra, Eliete, pára de se sacudir! Esta mulher, senhores, podia ser a mãe de meus filhos, e agora, agora envereda as sendas do pecado, -Dr Sepúlveda, venha cá, doutor, o que é que eu devo fazer? Como ginecologista, o senhor entende dessas coisas, onde foi que falhou, onde foi que o amor acabou, doutor? desculpa molhar sua lapela, doutor, mas eu sou sensível, doutor, ó doutor, que que eu faço, doutor... doutor, volta aqui. doutor, e seu juramento, doutor, que... não é vergonha chorar não, Eliete, me dá um conhaque.
- Ouvintes, do outro lado desta linha está uma mulher vil, uma víbora que envenenou um amor maior que o mundo... escuta, Suzana, escuta! -Eu seeeei que vou te amar!!! Por tooodaminha viiideu vou te amar! Vem cá, Hamlet! Canta enquanto eu declamo: "De tudo ao meu amor serei atento antes; hei de enxugar meu riso e acalentar seu pranto, quero vivê-lo em cada vão momento, que é, porra? E daí, tanto faz, ela é uma vaca mesmo! Não vou sair do ar porra nenhuma! Se tirarem, eu me mato ao vivo! Suzana... Zaninha... volta, vai... eu sei que é ridículo um homem do meu tamanho de joelhos, mas eu te amo, Zazá! O microfone tá dando choque, Zaninha, de tanto que eu chorei nele. Tá esse povo todo me olhando mas eu não ligo, Zaninhazinha... eu sei que eu fui um cafajeste, mas a Eliete só faltou implorar! Não significou nada p'ra mim, ela... que é, Suzana? Mas até o Hamlet andou com ela, pombas...Ai, Clervásio! Ai, Eliete! Não corta, não corta que eu vou até o fim! Eu te perdôo tudo, olha só: Pessoal, a gonorréia do Cupello era mentira! O negócio da corretora também! Eu vou botar todo o meu dinheiro lá! Vou pôr o dinheiro, o biscoito, a creolina, o cacete, mas volta, Suzaninha! A história da hemorróida era mentira também, gente! Suzana, tu és todinha uma flor... NÃO era isso que eu queria dizer, flor é em outro sentido... Suzaninha, tem uns trodlogui... monstros querendo me pegar, não deixa, vem p'ra cá. AAAAiiiii!!!! Afastem-se, ou eu estouro os miolos! Se esse pessoal for policial fazendo bico eu vou dedurar, Conde, eu vou dedurar! Eu vou embora, mas deixa eu me despedir do público!
- Senhoras e senhores, nosso programa termina aqui, por motivo de força maior; gostaria de registrar que o amor, senhores, o amor... o amor... é, o amor, é muito bom! Obrigado ao Supermercado Batatais, onde você vende mais, ao Queen, ao Napoleão e à Florosa, à Eliete, ao Valtencir, ao Limão, nosso Cabo-Man, e aos condes Scarpelli, que fizeram esta festa. Amanhã estaremos cobrindo a festa... qual festa mesmo, Eliete? Saleiro? Que saleiro? Ninguém sai daqui! Roubaram a porra do microfone!

 


À Sombra das Kichutes Imortais




Mais reminiscências. Meu sogro diz que eu tenho (ou tive, dependendo do quesito) uma vida interessante; de fato, estes 40 anos têm sido bastante movimentados. Em 77 Rivelino saiu do Fluminense para uma aventura mal-sucedida na Arábia. Bem, ele saiu, eu entrei. Resovi participar da peneira para os infantis. Naquele tempo a coisa não era como hoje, que mais parece um vestibular para o Instituto Rio Branco; havia uma seqüência de testes mas era num clima mais amistoso, sem o peso que há hoje - a carreira de jogador não era tão valorizada, a fome no país era menor. Pois fui, tendo me informado previamente com dois colegas de colégio que treinavam lá. Por algum motivo me acompanhou um amigo de peladas, vascaíno, que resolveu não só ir comigo, como ir à rigor - mas rigor vascaíno: camiseta cavada (com uma rica estampa do Cebolinha, furada), short puído, meião listrado de preto e branco, e sob tudo isso, um par novinho de Kichutes. Quem tem menos de 35 não sabe o que é isso. Explico. Era um tênis que imitava uma chuteira, de borracha (grossa) e lona (idem). Tinha uns pitocos enormes na sola que simulavam as travas de uma chuteira, o que resultava impossível chutar "por baixo", como convém; só saía de bico, mesmo. Como nos encontramos na porta, não pude fazer nada para evitar a tragédia, a não ser tentar o mais possível fingir não conhecê-lo. Existe um Deus, e a peneira foi adiada. Na quarta-feira seguinte, voltei. Havia cerca de 30 ou 40 garotos se amontoando, e o teste seria na base de ir entrando e jogando; o técnico se gabava de à primeira olhada saber se o cidadão era aproveitável ou não. O treino começou, as pessoas iam entrando, e eu batendo bola na lateral. Lá pelas tantas só sobrei eu, fazendo embaixadas sozinho. O técnico (Farias, foi técnico da seleção do Marrocos em 82) claramente não fazia fé, talvez meu biotipo: na época tinha quase 1,80 m (hoje tenho 1,90) e uns 45 quilos. De óculos. Bem, por falta de coisa melhor, me chamou e disse: entra no lugar daquele lá. Problema.
Uso óculos. O campo do Fluminense, naquela época (e hoje ainda) tem uma iluminação horrorosa. Como tinha dado meus óculos para um auxiliar dele segurar (não lembro o nome, era um sujeito sisudo, manco), não enxergava bulhufas, mas não podia dizer isso. Limitei-me a entrar correndo e gritar um "sai você" genérico, eles que se virassem. Esclarecido qual dos três deveria sair, lá fui eu para o outro lado do campo, o mais distante possível do olho clínico do Professor Farias. O sistema nervoso é uma coisa interessante; estava lá para mostrar meu futebol. Foi só entrar em campo para rezar para a bola não vir em minha direção. Mas veio. Quando percebi que era ela - sem os óculos podia ser um pombo, um ladrilho ou um quilo de açucar - já vinha um adversário voando e tomando-a de mim. Quando dei pela coisa, já não conseguia ver a bola de novo, eles já estavam a mais de 5 metros. Mediunicamente intuí o técnico balançando a cabeça. Mal me refizera do baque, estava inclusive ofegante, sei lá porquê, lá vinha a bola de novo. Desta vez dei um passo à frente e tentei travar a bola. O raio daquele campo era uma calombeira só; até autobol jogavam nele! Pois quando tentei pisar nela, um buraco a fez quicar. Pois foi quicar e o ponta-esquerda deles, doido para se fazer às minhas custas, que vinha rente que nem pão quente, passou direto. A bola quicou milimetricamente sobre seu pé, num drible sensacional - pelo menos para quem estivesse um pouco distante. Virei o corpo, levantei a cabeça, não vi nada mas não deixei que isso me impedisse: com a pose que estudara durante muito tempo, lancei a bola ao ataque. Quis o destino que caísse nos pés de alguém do meu time, que fez o gol. Não o vi, mas o ouvi perfeitamente. Na bola seguinte o ponta já veio com mais respeito, e para inovar passei a bola para alguém que eu conseguia ver. Trilou neste instante o apito final, e lá fui eu ver o que o técnico diria. Parecia um Mengele do futebol. Apenas dizia: -Não precisa voltar - ou -Volta quarta-feira. Pensei, não sem certa razão: se ele não falar comigo, não vai poder me mandar embora! Então, fui sorrateiramente para o vestiário, e nem tomei banho. Resgatei meus óculos de cima da mesa e fui pegar o 416, literalmente com as calças na mão.
Com surpreendente rapidez chegou a quarta-feira. Voltei ao clube meio ressabiado, imaginando o que o Professor diria. Pelo visto não só lembrou-se de mim como notou minha saída à francesa (lato e stricto senso), me saudando: -Olha o porco de volta! Supus que isto fosse uma permissão para treinar, o que fiz, sem muito brilho mas também sem fazer muita besteira. Desta vez tomei banho, e tive a permissão formal para voltar a treinar. Passou a me chamar de Gigante Branco - era o nome de um desinfetante ou detergente da época, numa alusão à minha altura e à cor saudável da minha pele.
Treinei uma meia dúzia de vezes, até que o joelho acelerou o que fatalmente aconteceria pela via técnica. Torci-o, e adeus, simples assim. Nunca mais pisei naquele gramado. O melhor de tudo é que eu queria fazer uma surpresa para meu pai; não contei nada sobre estar treinando lá, para um dia convidá-lo a assistir a um jogo ou algo assim. Acabei não deixando de fazer uma surpresa, quase ficando reprovado...
Resolvi escrever esta história até para me expor à execração pública: tivesse continuado, estaria no lugar do Cerezzo na Copa de 82 e jamais teria dado aquele passe para o Paolo Rossi, como também não perderia o pênalti na semifinal de 86. Em 90 eu não teria jogado mesmo, teria brigado com o Lazzaroni, e em 94 com certeza teria feito ao menos um gol no tempo regulamentar, apesar da pressão contrária do Parreira e do Zagallo. Em 98 me despediria do futebol não deixando ninguém contar ao Ronaldinho sobre seu pesadelo (eu sei a diferenca entre um pesadelo e uma convulsão, o que não parece ser o caso do Dr Lydio), e em 2002 não iria, apesar das súplicas, em solidariedade ao Romario, parando com a bola credor do respeito e da admiração dos amantes do futebol, deixando o país, deixa ver... octacampeão mundial. Isso sem falar no Fluminense...






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