Ano passado participei de um concurso no JB onde deveríamos contar um mico ocorrido em viagem e escrever um slogan falando da diversidade de Nova York. Escrevi o texto abaixo e o slogan: "New York, New York: Tudo, de tudo". Ganhei.
O Mico
Nova York é o paraíso para os desorientados. Ruas e avenidas numeradas, o máximo para quem, como eu, não sabe a diferença entre norte e sul. Epa, ISSO a gente precisa saber! Mas, tendo um mapa, nenhum perigo. Ou não?
Outubro de 1988, friozinho gostoso, 5º dia na cidade, hospedado num apartamento perto da rua 125. Por medo do metrô, que naquela época era um tanto apavorante de noite (havia fachos fortes de luz no teto das estações em regiões visíveis pela cabine de segurança, e instruções expressas para que se esperasse o trem ali), andava sempre de ônibus, que dava a vantagem adicional de se poder ver a cidade, sempre impressionante, que muda a cada esquina. Bem, naquele dia, ou melhor naquela noite, não levei o mapa. Até um desequilibrado do meu porte conseguiria fazer aquele trajeto, retíssimo. Mas… havia um desvio. Um ENORME desvio, e eu não reparei. Não mais que de repente, ponto final. Confiante de estar a uma ou duas quadras do meu destino, saltei, na rua larga e escura. Ventava, a sensação térmica era de gelo, tudo deserto. Pensei: ruas numeradas, era só achar o número da qual eu estava, e ir para a famigerada 125. Má notícia: a rua não tinha número. Caramba, e agora? Simples! Achar uma Avenida, e a partir daí me achar. Andei a esmo, ainda sem vivalma na rua, até que - alvíssaras! – uma avenida! Fui ao poste, e sob a luz amarela, o nome que na época ainda não tinha a repercussão que o cinema deu anos depois: "Malcolm X". Pensei: conheço esse nome! Desci a avenida repetindo o nome: Malcolm Xis, Malcolm Xis, malc… ao pensar em inglês (Malcolm "Éx"), a ficha caiu: Estou no Harlem!!!!
Uma explicação: o Harlem começa por volta da 125. Outra explicação, para manter o suspense: o Harlem não é o que se pensa por aí. É um belo bairro, de classe média alta, especialmente no início – negra. Durante o dia passar por lá é (ou era, em 88) tranqüilo, seja qual for sua cor, raça, etc. Mas, à medida que a noite chega, as coisas pioram. Um branco, a pé, depois da meia-noite, é provocação. Ah, sim: sou branco, tenho 1,88 m e olhos verdes. Vá lá, bunda grande, também. Ou seja, de boca fechada, um americano típico.
Mas, voltando: ir para onde? Direita, esquerda? Por sorte, ninguém na rua. Epa, o correio! Aquele prédio era familiar! Ali, ali a rua 125! Como disse antes, em Nova York as coisas mudam a cada esquina. No Harlem também. Da 125 em diante, estou fora dele, e por via de conseqüência, não estou provocando ninguém. Desci rápido a rua, até que… eram 3. Enormes. Maiores que eu, e muitíssimo mais largos. Roupas caras, caras fechadas. O pé do menor deles era do tamanho do meu fêmur. A cerca de 10 metros, simplesmente ficaram lado a lado na calçada, de braços cruzados e me olhando. Então, além da cara deles, a rua também estava fechada. Correr, nem pensar. Com aqueles pés tamanho fêmur, me alcançariam em décimos de segundo. Bem, se ia apanhar, que fosse com dignidade. Levantei os braços e, piorando o meu impiorável inglês, gritei repetidas vezes:
-Ái emi lósti! Ái emi lóst! Ái emi from Brasil!
Para aqueles que não têm a mesma fluência que eu no idioma inglês, esclareço que estava dizendo que estava perdido e que era (e continuo sendo) brasileiro. Já bem próximos, um deles levantou uma sobrancelha e disse, com essa pronúncia:
-Brizíl? Píli?
Píli? O que diabos significava isso? Mas o medo era tanto que a adrenalina iluminou meu pobre cérebro, com uma rapidez inimaginável:
Pelé!!!!! Gritei:
-Yes! Yes! Yes!
Imediatamente abriram um sorriso e, com um braço sobre meus ombros, resolveram me escoltar até a amada 125, pois, pelo que entendi da gíria deles, aquela zona era muito perigosa para brancos como eu. Quem poderia imaginar, não?
Na despedida, um deles me disse que seu sonho era conhecer as "muletas" de Copacabana.
posted by Ricardo Dias
10:37 PM