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Wednesday, August 17, 2011

 
O Nono Mandamento

-Amanhã eu volto.
-Vai com Deus. Levou o casaco?
-Marta, é verão. Deixa eu ir, 'tá na hora, fica bem.
Foi. Marta ficou na cama mais um pouco. Nunca pensou que se casaria com alguém que sairia em "viagem de negócios". Pior que ele falava exatamente assim, que nem num filme antigo: "Semana que vem saio numa viagem de negócios". Só faltava usar um bigodinho e chapéu. Será que se casaria, ou mesmo beijaria, alguém de bigodinho? Na adolescência aqueles buços eram inevitáveis, era isso ou nada, mas depois que os hormônios se aquietaram um bocadinho, nunca mais beijara ninguém de bigodinho ou mesmo bigosão. Barba ou cavanhaque também não gostava, mas bigode nunca mais. Achava - na verdade começava a achar agora, nunca havia pensado nisso - que bigode era que nem pochete, não queria estar com um homem que usasse. Houve uma época em que achou que queria casar com alguém de barba. Qualquer um, desde que usasse barba. Barbas guardam cheiros, ela saberia se fosse traída. Um relacionamento com um babaca mentiroso gera essas insanidades. Teria que usar barba e gostar de sexo oral, claro, pois sem isso a barba não serviria como evidência do crime. Sexo oral! 40 anos na cara e não conseguia falar nada que não fosse educado ou eufemismo. "Chupar", mesmo em pensamento, sova como coisa ruim, feia. Pelo menos gostava do ato em si!
- "Ato em si", que Deus tenha piedade de minha alma, nem pensar livre eu consigo!
Hora de levantar, escovar os dentes, tomar um café, sair não precisava, estava de folga. 24 horas só suas, sem o chato do... epa! "Chato"? Não se lembrava de ter pensado assim, pelo menos não diretamente. Já se havia chateado e enfadado com ele, mas isso é coisa pela qual todo mundo passa. Chamar de chato era tão definitivo quanto chamar de corno e ai meu Deus como foi acontecer essa associação de idéias!!!??? Não, nem pensar. Pior que ele estava de folga hoje, também; certamente sozinho em casa, certamente disponível. A esposa trabalhava em plantões, por que não? Banho, rápido. Frio, de preferência; muito frio. Gelado, se pudesse, que o telefone está perigosamente perto. Pronto, não foi suficientemente rápida ao banho, já está o telefone em uma mão, com cacófato e tudo, e a outra já discando.
-Alô...
-Alô?
Voz de mulher. Desligar, rápido! Mas não, é preciso fazer algo.
-Alô, quem fala?
-Marta, quem é?
Meu Deus, ela se chama Marta também!
-Oi, meu nome também é Marta, trabalho com seu marido...
Meu Deus, meu Deus, meu Deus, o que diabos está fazendo?
-Oi, ele sempre fala de você, como vai?
'Pera lá, fala o quê?
-Fala o quê?
-Ah, que você é divertida, inteligente, eu quase fico com ciúmes!
-E não fica por quê? Quer dizer, que bom que não fica, mas normalmente ficaria; quer dizer, eu ficaria, pelo menos!
-Ah, você não o conhece como eu. Ele é o homem mais caseiro do mundo, fiel como um cachorro velho!
-Acho que ele não ia gostar de ser descrito assim...
-E quem liga para o que aquele chato gosta?
Aquilo a espantou: chato? Será que ela estava fadada a atrair chatos? Seria um carma, algum atavismo?
-Chato como? Ele é bem agradável no trabalho...
-Desculpe, não devia ter falado assim, mas a coisa está feia por aqui. Acabamos de brigar, ele saiu meio que batendo a porta, desculpe, ainda não retomei o controle. E por favor, não comente com ele que eu desabafei com você.
-Desabafou? Mas você não disse nada, só que ele é chato!
-Bem, é quase um desabafo.
-Ué, pode falar à vontade. Não trabalho hoje, estou gostando de conversar. Meu marido quase não conversa comigo.
-Ah, o teu também? O meu chega, conta o que aconteceu no escritório como se fosse uma saga nórdica...
-Saga nórdica é ótimo!
-... e quer que eu demonstre interesse. O único nome em que presto alguma atenção é o teu, sabe como é: Marta também. Fora isso, entra por um ouvido e sai pelo outro. Um saco, um tédio mortal!
-Meu Deus, aqui é igualzinho! Ai, meu Deus, preciso parar de falar "Meu Deus"!
-Por quê?
-Eu sempre tive mania de falar "Meu Deus". No colégio as irmãs viviam me dando castigos p'ra eu parar de invocar "Seu santo nome em vão"! Acho que eu gostava daqueles castigos, cada vez falava mais!
-Não diz que você estudou em colégio de freiras! Eu também!
-Que coisa, onde?
-Minas.
-Ah, eu estudei aqui mesmo. Mas tinha uma professora mineira que eu adorava. Ela vivia me botando de castigo, um dia me botou no milho.
-Mas isso não era proibido?
-Era, e muito; além de me castigar ela me fazia prometer que não contaria para ninguém.
-Hummm... excitante, isso, hein?
-Pois é. Eu lembro até hoje da voz dela, do sotaque... até que era parecido com o teu.
-Mas eu não tenho sotaque!
-Você que pensa! Ninguém acha que tem. Irmã Anunciação também não achava que tinha.
-Mas que coisa, isso. As freiras me botavam de castigo, também, mas por que eu vivia conversando, não parava nunca. Tinha uma amiga com quem eu passava o dia todo, e elas viviam implicando, separavam a gente, diziam que era pecado falar tanto.
-Eu não tinha amigas, não; a irmã Anunciação implicava com todas, dizia que eu devia me preparar para o noviciado.
-Por que você não passa por aqui p'ra gente tomar um café?
-Ok, não estou fazendo nada mesmo!

Por via das dúvidas se depilou, tomou um banho caprichado e colocou uma calcinha nova.

 
A Rádio-Relógio e os Dinossauros


A questão já não era mais vida ou morte. Estar vivo de alguma forma era um erro, era inadequado. Ela tivera o profundo mau gosto de morrer incongruentemente jovem, de deixar muitos anos vazios à sua frente. Há pouco tempo era algo admirável de se ver num biquini (ou sem), e agora nada. Dentro em pouco, seu rosto seria visto pela ultimíssima vez que não fosse em fotos ou no filme do casamento. Ele não conseguia pensar em nada melhor para fazer que não fosse olhar, olhar e olhar, para aquela boca que na véspera fazia bolas de fumaça enquanto ele reclamava de mais um cigarro que ela fumava. Pensaram diversas vezes em divórcio, pois sua geração se separava a priori, era sempre a primeira solução. Continuavam tentando, porém, na expectativa de as coisas melhorarem. Mas, isso agora não fazia mais diferença. Nem arrependimento havia, que os problemas eram honestos. Agora ele tinha medo era de voltar para casa. Podia ir para a dos pais, mas sabia que se o fizesse, alguma tia daria o jeito de entrar na sua e apagar os rastros mais evidentes da passagem de Claudia por lá, e isso ele não queria, Queria sim era absorver tudo o que ainda sobrasse dela, sentir seu cheiro que se desvaneceria em breve, juntar cartas, papéis de bombom e lápis quebrados que contavam mais de uma vida que qualquer livro poderia fazer. No momento ele queria era acabar logo com aquilo, que enterrassem ou cremassem, não fazia diferença, mas que ele pudesse ir para casa, agora só sua, logo. Aquele desfile de piedade à sua frente parecia que tinha acabado; quem veio, veio, quem não veio, com sorte, não viria mais. No início, ele ainda achava divertido ouvir "Meus pêsames", de gente que não conseguia dizer um "Mas que merda", muito mais natural e simpático. Com o tempo, a brincadeira de tentar adivinhar se viria um "Meus pêsames" ou um "Meus sentimentos" cansou, e quando parou de chegar gente foi que ele pôde cair em si de vez. A hora ia avançando, o caixão ia ser fechado, e aquele rosto que ele vira acordar - ele calculara, num dos lapsos entre os cumprimentos - 1.108 vezes iria definitivamente ser tirado de suas vistas. Começava aliás a crescer no seu peito uma dor que ele adivinhava que não ia parar, pelo menos enquanto ele não chorasse alto, enquanto não enfiasse a cara no travesseiro, de preferência o dela, e perceber como o cheiro industrial de um shampoo podia se agregar aos odores naturais de uma pessoa e gerar tanta dor. Mais um colega de trabalho apareceu, desta vez se juntando à turma dos "Meus sentimentos" - justo ele, que na antevéspera se referia aos peitos numa revista masculina como "Caceta, olha só!". A dor alheia precisava ser cerimoniosa, não podia haver intimidade com a morte, não se sabe se por respeito ou por medo dela se animar, gostar e resolver fazer uma visitinha. Esse pensamento até o divertiria, se com o rabo de olho não visse aquela morta tão diferente, tão jovem, tão viva... teria alguma culpa? Um enfarte nessa idade era raro; diziam que quase sempre era fatal, mesmo, alguma coisa sobre falta de caminhos alternativos para o sangue, bombas que explodiam, coisas assim. Não fazia diferença se fosse câncer ou um tiro, pois o resultado seria o mesmo. Se ele vivesse dentro da expectativa de vida padrão, haveria mais uns bons 40 anos pela frente. Em termos lógicos, ele deveria refazer sua vida. Honestamente falando, o amor que os unia não se assemelhava a nenhum "Love Story" ou "Romeu e Julieta", era comum, vulgar, pouco prospectado por eles, mas era suave, calmo, tranqüilo. Mas agora era indecente pensar nisso com aquele corpo a poucos metros de distância, com várias movimentações fluídicas ocorrendo ainda. Um jovem viúvo gerava piedade, o que podia ocasionar perspectivas interessantes, como por exemplo Ana, sua colega de sala, que do outro lado da capela dirigia olhares prenhes de compreensão para ele. Será que se manteriam se ela soubesse que naquele justo momento ele especulava sobre a cor de sua calcinha? Isso o despertou, e fez com que ele desviasse os olhos de Ana e de Claudia (ou do corpo de Claudia). Seria Claudia quem estava ali, ou ela já se fora? Será que, caso fosse um espírito agora, ela poderia ler seus pensamentos? Na única vez em que ele estivera com outra mulher, ela telefonara justo na hora do primeiro beijo, o que estragou os seguintes (poucos) e o deixou especulando sobre se ela sabia o que ele estava fazendo. Nunca saberia, mas o conhecimento sobre a calcinha de Ana era mais exeqüível. Ele se imaginou perguntando a ela: "Lembra o enterro da minha mulher? Qual era a cor da..." Meu Deus, será que estava ficando maluco, ou havia uma ereção se encaminhando pela trama da cueca? Seria o fim de sua sanidade? Ele era absolutamente normal, não se enquadrava em nenhuma definição de psicótico, depravado ou algo assim. Droga, agora era o vizinho do 502, rapidamente se agregando ao grupo dos que não diziam nada, só davam um tapa no seu ombro e faziam uma expressão compungida. O que será que ele diria se soubesse que a lembrança da sua filha mais velha agora ajudava, e muito, aquela ereção? Um café talvez ajudasse, e foi à garrafa térmica ("Quem é que lembra de trazer essas coisas?"). 4 ou 5 mãos o impediram de se servir, tomando a iniciativa de fazê-lo. O copinho de plástico tinha um formato tão conveniente, tão agradável. Por que não era quadrado? Ou melhor, por que os japoneses tomavam saquê num copo quadrado? Será que não era incômodo? Bem, mas quem comia peixe cru... ele comera uma vez, e tinha a impressão de estar engolindo uma lagartixa oleada. A pimenta até era gostosa, mas no dia seguinte... um banheiro só, ele e Claudia se revezando... Claudia, caramba, que coisa! Morrer assim, dum jeito tão estranho, tão impróprio, subindo a escada do prédio e, no segundo seguinte, rolar por ela ("Sem um pio", segundo o porteiro) com uma ridícula penca de bananas ao lado da cabeça, os olhos ainda abertos. Ela parecia ter a mesma expressão que quando ele perguntara se ela queria casar-se. Nada escrito nos olhos, apenas uma certa perplexidade antes do "Sim". Não um "Eu quero", ou um "Vamos", mas um saxônico "Sim". Ela dizia "Sim" em alguns casos, como quando ele perguntava se queria mais vinho; nunca quando ele perguntava se ela tinha passado bem o dia, mas quando era uma questão quantitativa. Será que isso fazia alguma diferença agora? Ser assim ou assado fazia diferença quando se morria? Não em termos de Céu ou Inferno, mas em termos de modificar algo; pessoas que diziam "Sim" para um lado, pessoas que dizem "Hum, hum" de outro? Mas ela estava morta, e talvez quando chegasse sua hora ele não se lembrasse de perguntar essas coisas. Ela, com certeza, não o faria. Sua timidez era famosa, sua impossibilidade de se dirigir a um estranho era absoluta, então... mas e se houvesse algum parente esperando por ela "lá em cima"? Não, ela era tão jovem que nunca tinha passado pela morte de ninguém querido, deveria estar tremendamente sozinha, se encolhendo numa poltrona abraçando as pernas como fazia quando estava triste ou assustada, sozinha como jamais estivera, e ele não poderia fazer o habitual carinho na sua nuca, talvez nunca mais tocasse a nuca de ninguém, e as lágrimas agora turvavam sua visão. Acalmou-se com a visão do funcionário do cemitério, que se dirigia a ele. A hora estava chegando, tudo menos aquele sino terrível que anunciava o início do féretro. Será que "Féretro" se aplicava ao caso? Podia perguntar àquele senhor, que ele sabia ser professor de português, mas de fato não vinha ao caso. O caixão ia ser fechado, e nunca mais ele veria aquele rosto, ele não teria mais nenhuma importância dali a alguns poucos anos, não seria lembrado por ninguém, nada havia feito de notável, não deixara prole, não deixara um livro, seria um número num registro que aos poucos deixaria de receber cartas, sairia de listas, sumiria aos poucos, para nunca mais ser citado. No entanto, esse rosto dera beijos tremendos, dissera coisas lindas, não era justo. Enquanto ele vivesse, talvez houvesse algo, mas depois...

O sol estava se pondo, a Terra estava completando mais 18 horas de vida, se encaminhando para seu fim, que um dia viria. E amanhã Claudia seria tão antiga quanto Ben Hur, quanto um dinossauro, quanto a primeira ameba, quanto o BigBang, pois cada minuto que passa é um milagre que não se repete. Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre, a Galeria da Luz. Você sabia?



Wednesday, June 10, 2009

 
Pessoal, este blog fica, mas as novidades vão acontecer em http://uirapurupariu.blogspot.com
Todos lá!



Sunday, September 30, 2007

 
Quando eu era jovem, há muitos e muitos anos, estive numa festa em Santa Teresa. Santa Teresa, para quem não é do Rio, é um local, digamos, alternativo. Lá se fuma maconha e se olha feio para cigarro industrializado, lá se come alfafa, lá os suvacos das moças bonitas têm pelos, lá as pessoas são lindas e têm posicionamentos válidos, lúcidos e inseridos no contexto. Pois uma festa lá sempre teve seus atrativos, especialmente em épocas onde as moças eram mais ariscas. As de lá eram mais generosas ao distribuir seus favores mais íntimos. Na verdade não eram, mas a gente pensava que sim. Então, haver uma festa lá garantia sonhos lúbricos e olhos rútilos - de desejo ou maconha, o que fosse. Um amigo de um amigo foi convidado para tocar num evento, cometeu o desatino de dar o endereço e a festa foi invadida por meus amigos, todos sedentos por cultura. Ou por bebida grátis, não estava bem claro. O evento, diga-se, era vagamente sobre cinema, então aproveitei uma rodinha para mostrar minha cultura. Falavam de Glauber Rocha, eu tinha visto uma parte de um filme dele, o que me gabaritava a discorrer sobre sua obra. Foi o que fiz, tecendo minhas teorias e achando, pela expressão boquiaberta da massa, que estava agradando. Na verdade, as bocas abriram-se pela presença do próprio atrás de mim, que sem que o visse ouviu atentamente o que eu tinha a dizer e em seguida me esculhambou em grande estilo, dizendo que eu não tinha entendido nada, o que, convenhamos, era a mais pura verdade. O episódio me agastou um pouco com a obra Glauberiana, me impedindo desde então de ouvir seu nome sem ruborizar-me e suar frio. Pouco depois ele morreu, de forma no mínimo estranha, e ficou sendo um ícone definitivo. Um ícone que me esculhambou, o que o tornava mais icônico ainda.
O mundo gira, a Lusitana roda, e o destino, desta vez generoso, me levou a conhecer uma criatura doce, de uma vivacidade, ahn, Glauberiana: Dona Lucia, mãe dele. O “destino” se chama Luciana, estagia no arquivo no Tempo Glauber e participa de momentos muito interessantes de minha vida. Dos mais, certamente, mas desta vez se superou: com esmero desusado convidou-me a participar de um evento chamado “Noite Contemporânea”. Bem, esse tipo de festa me lembra a queda do Império Romano, performances me fazem pensar que era isso que rolava em Gomorra, em suma, festas alternativas me dão urticária. Mas, para meu total e absoluto pasmo, me deparei com uma festa agradável, gente de banho tomado, inteligente, e, melhor de tudo, Dona Lucia. E ela, sorry periferia, me convidou para assistir à reestréia de “A Idade da Terra”. Dona Lucia tem uma história de vida épica, comeu o pão que o diabo amassou sem reclamar do sabor, passou por coisas incríveis e, contrariando Guevara, não só não endureceu como não perdeu a ternura. O que fazer? Não havia como não ir, mas tinha medo que a qualquer momento Glauber aparecesse e me expulsasse do cinema ou algo assim. Mas fui.
Ao chegar, fui surpreendido pela apresentadora da festa, a diretora do Rio Cine Festival, Hilda Santiago. A conheci, priscas eras, como Hilda Chaves. Explicação:
1984, governo militar de João Figueiredo. O vice era Aureliano Chaves, que quando o titular foi se operar do coração, virou presidente em exercício. O diretório Acadêmico de Comunicação da UFF estava acéfalo: seu presidente desaparecera, ninguém sabia bom onde diabos ele se metera, então Hilda, já naquela época uma pessoa mobilizadora e ativa, virou presidente em exercício: Hilda Chaves, portanto. Aquele período foi conturbado: a ditadura estava no fim, aparentemente, mas o general Newton Cruz (Nini, para os íntimos) não parecia satisfeito com isso, e foi responsável por medidas de emergência em Brasília. A nação prendia a respiração, o pacato general mandava um repórter pedir desculpas em frente às câmeras, e a democracia corria o risco de morrer antes do parto. O DA de Comunicação, então, se juntou às forças do bem e organizou um protesto que fez tremer a ditadura: um panelaço. Em determinada hora, todos bateram panelas enfurecidamente. O episódio merece uma digressão: meu avô contava que no interior do Pará, quando da passagem do cometa de Halley no início do século 20, as pessoas batiam panelas para espantar o bicho. Bem, o panelaço da UFF deu tanto resultado quanto o do cometa, então partimos para algo verdadeiramente sensacional: um protesto durante uma palestra do grande repórter político Carlos Castello Branco. Foi redigido um texto, texto esse que tinha até “outrossim” escrito nele, para ser lido no palco. Eu e Hilda discordamos do texto, o achamos, no mínimo, um horror, mas fomos voto vencido, viva a democracia. Chegando ao auditório, lotado, o comando do DA (do qual eu era apenas um tarefista, pintava os cartazes) resolveu por bem que não tinha cabimento entrar todo mundo no palco. Que fosse só a Hilda. Talvez a presença de dois generais ao lado do reitor tivesse ajudado esta decisão, não sei, mas o fato é que ela “teve” que ir. Ora, sou um cavalheiro. Covarde, mas cavalheiro. Não podia deixá-la sozinha, então fui junto. Leu-se a desgraça, com outrossim e tudo, e o Castello deu-nos um aceno de cabeça, aprovador - acredito que mais pela atitude que pelo maldito outrossim. O olhar do reitor foi um pouco menos simpático, e o dos generais foi caloroso. O calor do inferno, para ser mais exato. O fato é que nunca mais falei com Hilda, e tive a oportunidade de abraçá-la num momento muito especial para ela, onde ela novamente subiu ao palco mas desta vez para uma tarefa bem mais agradável - e sem outrossim - anunciar o “A Idade da terra”.
Mas, ao filme. A filha de Glauber, Paloma, nos informa que era desejo dele que o filme não tivesse seus rolos numerados. Assim, o exibidor poderia participar da criação da obra, resolvendo que pedaço colocar em cada parte. Isso já me causou um certo arrepio. Gosto de filme com mulher pelada, carro que explode quando bate e música romântica. Comecei a desconfiar que não haveria nada disso. Acabou que houve coisa pior: o pinto do Pitanga balançando ao seu dele bel prazer. Nenhum carro explodindo. Mas o filme (e nele havia uma entrevista com... Carlos Castello Branco!!!!)era um filme que não era um filme: era um delírio, a coisa não fazia sentido, a câmera balançava... aí tive um insight: ok, a produção não era rica, mas deveria haver grana para comprar um reles tripé, que diabos (e não estou me referindo ao Pitanga, evidentemente)! Se o cara resolveu que ia sair tremido, algum motivo havia. O texto... idem, Glauber era um escritor talentosíssimo, um texto primoroso. Se queria aquele negócio maluco, não seria por falta de repertório. Aí lembrei de Picasso, que pintava maravilhosamente bem em qualquer estilo; tinha conteúdo para fazer o que quisesse, escolheu deformar o que via e mudar tudo. Glauber inventou uma linguagem, o que tinha a dizer estava ali no meio, era o caso de pescar. E uma bela hora ele nos diz que há países capitalistas pobres, países capitalistas ricos; há países socialistas pobres, e os há ricos. A verdadeira divisão do mundo era (e é) entre ricos e pobres. E aquela estética, sem imagens grandiloqüentes, cortado a facão, era a sua forma de mostrar sua opção pelos pobres. E no filme se instava, a todo momento, a que se matasse Brahms. Brahms era vivido pelo grande Maurício do Valle, e ele todo era nossa elite. Não mataram Brahms, mas mataram Glauber.
O filme terminou, aplaudidíssimo. Me perguntaram se havia gostado do filme, e me dei conta que não só não gostei como não é para se gostar: não se gosta de um tapa na cara. É um filme para se esbravejar, para se tirar a espada da cinta e com um ginete na mão sair derrubando essa canalha que ao longo dos anos diz que nos governa. É filme para incomodar, para nos deixar remexendo na cadeira, para dar pesadelo de noite. E foi aplaudido.
Juro que o vi novamente atrás de mim, mas desta vez dizendo:
-O que é que estão aplaudindo? Não é para aplaudir, ninguém entendeu nada, nada, nada!



Monday, August 27, 2007

 
Sóis


O que ele estava fazendo ali? Uma coisa é estar dirigindo por uma estrada vazia, numa noite sem lua, ouvindo música dos anos 70 no rádio; outra, muito mais estranha, é, no momento seguinte estar sentado num areal (seria areia, mesmo?), num entardecer com dois sóis. E, enquanto isso, continuar ouvindo a música (Creedence) como se ela estivesse num cômodo ao lado.
Era um mundo estranho. Sem saber como sabia, tinha consciência que aqueles sóis tinham órbitas excêntricas; como um era muito mais afastado do planeta que o outro, havia 3 momentos distintos do dia: dia, noite e penumbra. E que essa tríplice condição fazia daquela terra uma terra diferente da nossa; enquanto na Terra tudo era dual, naquela tudo era tríplice. A própria matemática; na Terra, os computadores (ele tinha lido em algum lugar) nada mais eram que usuários de códigos binários; no fim das contas, tudo que eles faziam era na base de instruções zero/um. Naquele planeta, não. O caráter do povo, moldado por séculos de um dia tríplice, exigia uma terceira condição. Seus computadores utilizavam um código que continha um terceiro pedaço, imponderável, que era o talvez. Utilizava zeros, uns e zeros ou uns; Isso gerava máquinas falíveis, o que era perfeito; se uma máquina "infalível" falha (e isso sempre acontece), o resultado é uma catástrofe. Se, porém, a máquina a falhar é francamente falível, há a necessidade de outra máquina (igualmente falível) para checá-la. Havendo o erro, estatisticamente previsível, nenhum problema terá maiores conseqüências.
Isso era o resultado de uma cultura evidentemente superior (ou completamente louca, claro), que tentava imitar Deus de forma mais humilde: do mesmo modo que Ele não criara nada perfeito, também aquele povo não tentava fazê-lo. Isso era estranho, para ele: uma cultura que criava coisas que sabia que não iam funcionar direito. Mais estranho ainda talvez fosse ele não se espantar com o fato de estar ali, sozinho, num deserto (areia?) avermelhado, com apenas um diminuto sol no horizonte àquela altura. Calculou que sua sombra devia ter uns 15 metros naquele momento. E, estranho, sabia que estava no meio de uma movimentada cidade. O fato de não ver ninguém não o preocupava; ele sabia que aquele povo estava fora de seu espectro visível. Aliás, em função do som do rádio do seu carro ( os Beach Boys?) ele desconfiava que não estava ali de corpo; talvez uma parte dele ainda estivesse dirigindo, e ali só estivesse sua consciência, ou algo assim. O diabo é que ele podia sentir a tepidez daquela (areia?) finíssima e avermelhada entre os dedos. Será que sua consciência tinha um tato tão bom assim? E, principalmente, por que? Ou alguém achava que ele ia sair dali (dali aonde?) e disparar contando p’ra todo mundo? Aliás, contar o quê? O que de fato estava acontecendo? Será que ele tinha virado uma espécie de Gregor Samsa interplanetário? Será que aqueles que o levaram para lá iriam se mostrar? Será que ele voltaria, será que estava de fato em algum outro lugar ou apenas enlouquecera? Um acidente, e ele estava em coma? Não, ele sabia que não. Ele sabia que estava ali (aonde?), senão de corpo, pelo menos num outro estágio (novamente um terceiro estágio?), aprendendo. Para quê? Para ser um novo Messias, ou a piada da semana? Ou bastava àqueles seres que alguém soubesse, que só uma pessoa soubesse? Então talvez fosse melhor esperar para ver.
A música já estava irritando. Não lhe parecia apropriado estar revolucionando a experiência humana enquanto ouvia o Abba. Imediatamente a música foi substituída (Rhapsody in Blue). Como tinha aquele cd no carro, ficou sem saber se no fim não fora ele mesmo quem havia mudado a música. Mas estava melhor assim. Nisso, começou a ver uma história (aonde?) como um filme educativo, sem som (só o do Gershwin do seu cd player), uma história, que contava de coisas muito antigas, que ele não conseguiria jamais repetir muito menos esquecer, pois aquela história era a sua vida, a vida de suas células, de sua alma, de suas vidas, que era a de todos, que era a do Mundo, que era a do Universo, que era a de Deus. E que aquele povo queria apenas compartilhar com alguém esse conhecimento, tão recente, tão espantoso até para eles. E que fora ele, numa estrada sem luz, o escolhido para ser feliz, numa obra do acaso que agora descobria que não existia. Era tudo muito confuso. Talvez nunca mais lembrasse de nada daquilo, mas não se preocupava.
Estava vendo agora uma criança numa biblioteca. Ela ficava na ponta dos pés tentando alcançar um livro de lombada dourada. Não conseguindo, empilhou outros livros, subiu nestes e pegou o que queria. Não conseguia ler direito; estava escuro, o livro era pesado, e a criança ainda era muito pequena, no final das contas. Mas estava com ele na mão, e isso era um excelente começo.
Ultrapassou um caminhão assoviando o Bolero de Ravel.



Friday, March 23, 2007

 
Uma Fábula (p’ra EMC)

Há muitos e muitos anos a terra era chata. Redonda, mas chata. E além de chata era entediante, nada acontecia. Vez por outra um navio caía do mundo, mas até ese tipo de espetáculo cansava. Dragões voavam de lá p’ra cá, mas seu fogo já não inspirava nem receio nem admiração, dizia-se que até domesticados haviam sido em determinada aldeia, senso usados para calefação e pequenos churrascos dominicais. Banho não, que estes não aconteciam lá. Em outra as mulheres haviam expulsado os homens de seus leitos, preferindo a companhia umas das outras, e em outra mais distante os homens haviam expulsado suas mulheres, preferindo dormir sós. E sobre todas as aldeias pairava aquele imenso, palpável e úmido tédio.
Numa aldeola da Britânia, porém, uma moça resolveu insurgir-se contra aquilo. Não se dava conta da coragem necessária para ser quem era, achava que suas conquistas eram ralas e comezinhas. Se escalasse o Monte Alto, diria que o tempo a havia favorecido; se atravessasse o canal a nado, diria que as correntes a levaram; se ganhasse o torneio de matemática diria que havia caído por sorte só o que ela sabia; se fosse declarada Miss Terras Inóspitas diria que as concorrentes haviam desistido. Cansou-se, mais de si que dos outros, e foi.
Cruzou os mares conhecidos, atravessou um outro mais ou menos conhecido, um outro absolutamente desconhecido e aportou em novas terras, justo onde o Mundo começava a curvar-se, preparando-se para se tornar uma esfera num futuro próximo.
Mas a verdade é que ela tinha medo, pois estava só. Estava só e para falar a verdade não gostava muito da própria companhia, pois, como já foi dito, não se conhecia. Sócrates já havia sugerido o contrário, mas ela não sabia disso e se mantinha triste num mundo inóspito e sem espelhos. Um belo dia, entretanto, se curvou para apanhar uma flor, ou talvez tenha apenas tropeçado, e se viu refletida na água do rio que por ali passava, e assustou-se. Quem era aquela moça bonita, de quem era aquele olhar vívido que ela imaginava baço? Não que a moça fosse burra, ela sabia muito bem que a imagem era ela mesma, o espanto foi metafórico: o que a assustou é que aquela imagem não correspondia ao que ela esperava. Subitamente descobriu que não sabia em absoluto o que era; seria afinal quem? O que ela via no espelho d’água ou o que ela via olhando para dentro? Aterrorizada, descobriu que nem para dentro havia olhado, apenas se contentara em não pensar nisso. Cansara-se do tédio, e tomara uma atitude: isso a fazia diferente? Era diferente antes, o era agora ou não o era de fato, era tudo uma grande quimera?
Os anos se passaram, a terra esferizou-se, descobriu-se o valor mais aproximado de pi, os dragões foram extintos e essa história será colocada numa garrafa e jogada ao mar, na esperança que ela um dia a encontre, leia e acredite em quem é. Nesse dia ela vai olhar em volta e descobrir, estupefata, que o mundo ficou plano de novo, apenas para saudá-la.
E com isso derrubando metade da humanidade no vazio, mas bem-feito p’ra eles!



Tuesday, April 25, 2006

 
Nos Bares da Vida

Aos poucos vou escrevendo aqui minha autobiografia. Sou luthier de profissão. O que diabos é isso? Simplificando, a luteria é a arte de construir e consertar instrumentos de corda, no meu caso violões e família. Mas antes me dediquei a tocar violão. Primeiro o dito “popular”, depois o dito “clássico”.
Tudo começou com as más companhias, meus amigos de adolescência, a começar pelo já falecido Galdino (depois falo mais dele), cultuavam música. Eu mesmo não ligava a mínima, mas como passarinho que anda com João de Barro vira ajudante de pedreiro, acabei me metendo a tocar. Cedo percebi duas coisas: não levava muito jeito para a coisa, e as mulheres gostavam de quem tocava violão. Este é um ponto delicado; tocar para agradar as moças exige timing perfeito. Há um período, uma espécie de dança do acasalamento, em que você lança feromônios musicais no ar. Há que saber a hora exata de parar, pois se não, você vai fazer fundo sonoro para romance dos outros, e chuchará o dedo o resto da noite. Como se vê, era uma cafajestada, mas estávamos nos anos 80, as coisas estavam começando a acontecer e havia urgência no ar. Voltando à cafajestada, havia táticas; quando se tocava em barezinhos, por exemplo – verdadeira praga dos anos 80, havia 4 em cada esquina – o lance era destacar uma favorita e uma estepe, caso falhasse com a primeira. Para a favorita mandava-se olhares lânguidos, e havia que escolher a trilha sonora correta. Por exemplo, tocar “Eu Sei que Vou te Amar” e, ao invés do Soneto da Fidelidade, olhar nos olhos da vítim… digo, eleita, e declamar: Ai, minha amada, que olhos os teus… mas com um olhar que afirmasse que aquilo estava saindo na hora, e para ela. Certo, não era muito honesto, mas e a Guerra do Paraguai? E a CPI do Banestado?
Confesso que era um mau cantor. Péssimo, aliás. Pavoroso, tão ruim que poderia até fazer sucesso hoje. Não afinava sequer uma nota. Meu afinador era um gole de vodka, ou Martini (doce) ou Cuba Libre. Não sei se melhorava a afinação, mas com certeza reduzia o senso crítico, o que dava rigorosamente na mesma. Mas havia um porém: sempre fui (Surpresa! Surpresa!) um pouco neurastênico, e pendurava uma placa no pedestal do microfone com os dizeres:
NÃO TOCO:
Espanhola
Manoel o Audaz
Andança
Travessia
e outras, para evitar ter que tocar cada uma daquelas músicas 18 vezes por hora. O pessoal não era muito criativo. Tinha sempre uma moça que dizia:
-Ah, mas p’ra mim você toca…
E eu, simpaticão:
-Especialmente p’ra você, eu NÃO toco!
E não tocava. Mas a coisa era meio esculhambada. Uma vez uma moça foi se queixar ao dono que eu não havia atendido o seu dela pedido. A resposta foi histórica:
-E você quer que eu faça o quê? A gente não paga nada a ele mesmo!
Mas o bom era tocar com o Defunto Galdino. Ele era um exímio violonista, e éramos muito parecidos na penumbra. Revezávamos às vezes, e ele nunca sabia a hora de parar. Ajudava muito, mas eu tinha que sair rápido do bar antes que minha acompanhante percebessem que eu era “o outro”.
Chamo-o de Defunto Galdino porque ele, adivinhem, morreu. E na missa, o padre, um completo imbecil, só se referia a ele assim. Vocês podem achar meio frio me referir desta forma a um grande amigo, mas acreditem: ele faria muito pior se fosse eu que tivesse dançado.
E foi ele que me iniciou no violão clássico. Um grande didata. Por exemplo, deve haver da parte de quem toca cuidado para que o polegar da mão esquerda fique oculto, não fique subindo à toa. Ele gentilmente nos firmava isso na mente, pois a cada vez que o fizéssemos ele enfiava o cigarro aceso no dedão da gente. Por conta desta e de outras características resolvi ser autodidata.
Meu avô foi minha primeira platéia. Aficcionado por Dilermando Reis, para ele toquei a primeira música que aprendi sozinho: Abismo de Rosas. Até que o que tocava em alguns momentos parecia com a música… continuei, e descobri que uma Universidade particular do Rio de Janeiro oferecia bolsas aos mais bem classificados em seu vestibular para sua nova cadeira de música. Inteligentemente, larguei jornalismo numa universidade federal e fui para lá.
Já nesta época eu tinha uma idéia muito bem definida do que queria em termos musicais. Para quem não está familiarizado, o meio do violão clássico é capaz de ficar horas discutindo se a unha do dedo médio deve ter 1 mm ou 1,5 mm. É coisa para neurótico em último grau. Pois nunca conseguia tocar como imaginava, ficava sempre pior do que esperava, e isso ia me deixando nervoso. A perspectiva de tocar em público me deixava de desconfortável a em pânico. E veio o dia do primeiríssimo recital.
Seria um recital coletivo. Todos os alunos tocariam, e o doido do professor queria que eu fechasse a primeira parte. Não adiantou me recusar. Para facilitar minha vida, na véspera um outro professor resolveu me ajudar e disse que eu fosse à sua casa, ele me ouviria. Fui, toquei, e ele começou a gritar: -Isso está um horror, você vai passar a maior vergonha de sua vida!!!! Dá para imaginar a paz de espírito com que recebi estas gentis palavras. Mas não havia como desistir, valia nota e eu tinha uma bolsa. Chegou, como disse, o dia.
O recital ia bem, ouvindo os colegas eu ia me acostumando à idéia, e apesar do auditório ser gigantesco, havia umas 30 pessoas no máximo, praticamente todos alunos de música, mesmo. Hummm, até que não ia ser difícil. Houve uma mudança, alguém que não havia chegado chegou, ia tocar antes de mim. Adorei, pois tinha acabado de tocar um grupo que fez um sucesso retumbante, mesmo mais calmo achei que seria demais sucedê-los. O colega atrasado, então, entrou e tocou, bastante bem. Aí veio a minha vez.
Existe um Deus no Céu, mas também existe um diabo no inferno, e este avisou à prefeitura do Campus que um espetáculo de alto nível estava se desenrolando no auditório. O que fez a administração? Mandou liberar todos os alunos que estivessem em aula para assistir-nos. Então, eu saí da platéia e entrei nas coxias deixando às minhas costas uns 30 gatos pingados. Como num episódio de Além da Inaginação, ao entrar no palco, me vi diante de mais de 500 pessoas, todas gritando à minha entrada. Acho que foi ali que meus cabelos embranqueceram. Com alguma dificuldade me arrastei até a cadeira, me coloquei em posição, não rezei pois não conseguia lembrar de nenhuma oração, e me preparei para tocar. Respirei fundo, e fui. Toquei meio anestesiado as primeiras músicas, não faço a menor idéia de como me saí. Seriam 3. Minha música de encerramento era uma canção catalã, em duas partes, ambas no mesmo tom, Ré Maior. Eu deveria tocar a primeira parte, a segunda, repetir ambas e fim. Durava menos de dois minutos. Toquei a primeira parte, toquei a segunda , e ao voltar à primeira, deu um branco. Como era tudo no mesmo tom, repeti, e lembrei o que havia esquecido, e toquei. Mas toquei fora da hora, o que me fez perder a emenda para chegar ao fim, e me vi tocando de novo o início. Não havia jeito de conseguir lembrar o raio da música, e toma de tocar um pedaço de uma parte, um pedaço da outra, na esperança do público não perceber. Chegou num ponto em que não agüentei: fiz blém, BLOOOOMMMMMM, dois acordes de encerramento, e que se danasse o mundo que eu não me chamava Raimundo. Fui aplaudidíssimo, e acho que percebi um certo suspiro de alívio por parte da platéia.
Ao sair do palco, a organizadora do recital me mostrou o relógio:
-Essa música levou 6 minutos e 23 segundos. Deve ser um novo recorde.
Há uma chance de ter sido este um dos motivos que me levou à luteria.

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Tuesday, November 15, 2005

 
Ao Vivo


-Estamos aqui nessa festa maravilhosa, na casa do Conde Scarpelli, no Morumbi. Casa não, que isso aqui é um palacete. E, na nova fase de nosso programa, cobriremos a festa ao vivo, entrevistando todos os convidados, cada um mais chique que o outro. Voltamos depois dos comerciais.

-Porra, Valtencir, vê se pára a câmera em mim! Tu fica olhando pras bundas dessas vagabas e me tira do foco, caramba! Eliete, me arruma uma bebida aí. Como vai, Condessa? Belíssima festa, belíssima. Meu programa vai até arranjar um patrocinador mais fino depois dele; é, chega de "Supermercado Batatais, é barato e vende mais"... telefone? P'ra mim? Obrigado, Condessa.

-Suzana? Por que foi que não ligou para o celular? Ah, é, esqueci de ligar ele. Pronto, liga p'ra lá. Não, não gosto; tenho a impressão que esse pessoal acha que se me deixar sozinho num cômodo eu vou roubar a prataria. Não, só consegui pegar um cinzeirinho. Mas o que é que você quer? Por que não pode esperar? O QUE? Como "nunca mais" ? Assim, de repente? É alguém que surgiu? Espera, não desliga, droga! Como é que você acha que eu vou ficar? Depois de um ano um pé na bunda sem mais nem menos? Suzana, não desliga, pombas! Peraí que tá quase na hora d'eu entrar no ar. - Já vou, Eliete! Manda o Valtencir ir mostrando a casa p'ra fazer hora! -Me dá o número de onde você está, amor. Tá, tá, não te chamo mais assim, mas me dá o número! -Já vou, porra! Calma!- Me dá o número, Su... Suzana? Suzana????!!!!!!

-Estamos de volta depois da mensagem dos nossos patrocinadores. A festa acabou de começar, ainda falta chegar muita gente, mas a noite promete. Vamos dar uma palavrinha com nossa anfitriã, a Condessa Scarpelli. -Condessa, essa festa é para comemorar o que exatamente? Conte para nossos espectadores. -Eliete...Eliete... me arranja uma bebida, rápido! - Muito interessante, Condessa... Bodas de Ouro... Ah, de Prata, claro...Ra rá... seria impossível, ra rá. E esse quadro, com essas bandeirinhas de São João...é um Portinari, não é? Ah, claro, Volpi, foi o que eu disse. Mas se a senhora puder ir dizendo o nome dessas belíssimas obras de arte enquanto nosso cameraman mostra para os telespectadores, que devem estar ansiosos para ver tudo, tintim por tintim. -Eliete, arruma outra, correndo, que dá tempo antes de chamar o comercial. - E qual é a sua peça predileta, Baron...Condessa? Dinastia T'ang, diz a senhora? Usavam para tomar refresco, ra rá?! Quanto????? E como foi que esse dinheiro saiu do país, Condessa? Ra rá, brincadeira, brincadeira...Mas, antes de chamar os comerciais, majestade, gostaria de passar-lhe às mãos um presente de nossos patrocinadores, o Supermercado Batatais, que é barato e vende mais: um vale compras no valor de 100 reais, não esqueça de levar sua identidade na hora da compra, mais essa bolsa de produtos, todos em promoção na loja da Moóca, contendo creolina Florosa, biscoito maizena Napoleão e absorvente íntimo Queen, o amigo certo da hora certa.

- Eliete, minha filha, você tá me sacaneando; me batizar um uísque desse jeito?! Era vodka? Bom... liga pra alguém e me descobre o telefone da Suzana. Sei lê, porra, te vira! Liga pra polícia, p'ro SNI, p'ra tua mãe mas liga p'ra alguém, porra! Tá, eu sei que tá voltando!
- Depois de nosso querido câmera mostrar um pouco, só um pouco desta esfuziante festa, vamos nos colocar numa posição estratégica para melhor focar quem chega. E vejam só, espectadores, se não é o grande Romeu, da dupla Romeu & Hamlet; grande Romeu, e teu irmão, vem também? Oh, Hamlet, você está aí; não te vi, tão pequenininho, dá cá um abraço. Vamos ver, um doce para quem adivinhar o verdadeiro nome do Hamlet! Isso, vão pensando aí que já já a gente volta!

-Porra, Clervásio, me chutar no ar? Eu ia dizer que teu nome era Roberto, porra! Vou mancar a noita toda, viado! Eliete, cadê a porra do uísque, minha filha? - Como está, condessa, novamente passando por aqui, não é? Pode checar a prataria, rá rá, está tudo no lugar! - Eliete, vou roubar uma porcelana só pra sacanear essa jararaca! E minha ligação? Ai, caramba, já está na hora de novo?

- De volta aqui da festa que está agitando São Paulo, e respondendo à nossa pergunta: qual o verdadeiro nome do Hamlet? Lá vai: é Ninon! Sim senhores, N-I-N-O-N! Tão másculo! E ainda dizem que a mãe preferia menina, que absurdo! E agora chega a nossa querida, primeira e única, Cleópatra Campelo, a rainha da noite de Sampa; uma palavrinha para seus fãs, Cléo! - Conseguiu, Eliete? Me dá aqui. Eu sei, me dá, porra! Meu bem, meu bem, não sai da linha que eu já falo com você. Quem? Cupello? O que é que você est... - Muito obrigado, Cléo, tenho certeza que nossos espectadores adoraram saber essas novidades, um beijão, e já já a gente volta, direto da Mansão Scarpelli.

- Que é, Eliete? A Cléo estava sem voz? Dane-se a Cléo, quero que ela... manda ela parar de chorar e me dá um Gin, porra! - Alô, Cupello, o que é que você está fazendo aí com a Suzana? Tua mulher estava aqui agorinha mesmo, e... O QUE??? Chama ela aí, ela vai ter de me confirmar de voz vi, de viva-voz! - Eliete, outro uísque, porra! - Como, ela não quer falar comigo, chama ela, caramba! Posso ser corno, mas ainda sou o marido dela! - Porra, Eliete, manda o Valtencir mostrar umas bundas e pára de me encher o saco! - Suzana, meu amor, fala comigo, fala! Sai da linha, Cupello, deixa ela falar! - Já vou!

- Voltamos aqui para esta belíssima casa no Pacae... Morumbi, sempre recepcionando os convidados que não param de chegar! Ora, se não é Hamlet querendo falar de novo conosco! Nada disso, meninão, você já falou hoje AI MINha perna! desculpem, senhoras e senhores, dei uma topada, não foi nada. Agora estamos com o próprio Conde Scarpelli, quanta honra, majestade! Sim, eu sei, mas seu porte é majestoso, é ou não é? Vamos perguntar a todos: o conde é majestoso ou não? Todo mundo: ÉÉÉÉÉÉÉ!!!! Então, eminência, viu como é bom ser querido? Aliás, cá entre nós, o senhor está em ótima forma, aposto que a condessa anda bem contentinha... o que é, Eliete? Comerciais? Sim, e numa oferta dos Supermercados Batatais, onde você compra mais, e do absorvente íntimo Queen, agora com novos sabores! Fragrâncias, fragrâncias! Já voltamos.

- Conde, conde... cadê meu uísque, Eliete? Como não, me dá a porra do uísque, caramba! Ou quer que eu beba direto do gargalo? Cadê o celular... Suzana, meu amor, fala comigo... Zaninha... faz assim com teu nhumnhum não, mozinho. Fala comigo... fala, vai... FALA COMIGO, SUA VACA! - Que é, Eliete, dane-se que estejam olhando, sai p'ra lá, Clervásio, minha perna já tá toda inchada, Suzana, fala comigo, por favor! Não desliga, não des... Alô, Suzana? Fala p'ra esse viadinho do Cupello prestar bastante atenção na TV, tá bem? Cadê o gelo, Eliete? Ah, não tinha visto, me dá outro uísque; era gin? Qualquer porra, minha filha, qualquer porra!

- Animadíssima a festa, não pára de chegar gente, e quem nós vemos, saindo do toilette? Madame Zoraya Cupello! Que prazer encontrá-la aqui! O senhor seu marido, veio também? Coitado, gripe forte? Pelo menos a senhora está bem acompanhada, belo rapagão que está com a senhora, é pelo menos o dobro da altura do Cupello e metade do peso, hein? Ra rá rá! Algum parente? A senhora estava tão próxima dele, que pensei que fosse seu irmão, sei lá; a gente só via os bíceps dele subindo e descendo, pareciam três, não, dois morrinhos. Mas cá entre nós, os boatos sobre a falência da corretora do Cupello, têm fundamento? Como que boatos? No Brasil inteiro só se fala que amanhã todos os investidores vão fazer uma manifestação em frente à casa de vocês e exigir o dinheiro que investiram! E ele debilitado por aquela doença que ele pegou na Suécia, parece que as injeções são tão doídas! Como, Zoraya, aonde é que você vai? Peraí, conta p'ros nossos tepeslec... teleskep... ouvintes a respeito daquele filme que você fez nos anos sessenta, sobre o naturismo nas ruas... Zoraya, volta, minha filha, quer dizer, madame... estranho, senhoras e senhores, que Madame Zoraya tenha resolvido partir tão rápido. Voltamos logo após os nossos comerciais.

- Eliete, porra, cadê o treco? Sei lá, qualquer bosta... ÁGUA NÃO!! Qualquer coisa, menos esse líqüido nefando! Vem cá, Valtencir, você é meu amigo. Valtencir, porra, olha p'ra cá que eu tô falando com você, parece que eu tenho mau-hálito, porra! Olha p'ra mim, Valtencir, você é meu único amigo, tá todo mundo a fim de me derrubar, essa Eliete fica regulando minha bebidinha e... - Já? Como finalizar? Eu tenho que falar com meus amigos primeiro, eles são tudo gente boa!

- Oi, pessoal de casa! Estamos aí, com esse monte de gente boa, e agora... ARCEBISPO! Vem cá, santidade! Uma palavrinha para seu rebanho! Cá entre nós, como é que o senhor recebeu a notícia do aborto que a filha da Condessa fez, hein? Vai p'ro inferno ou não vai!? Ra rá! Brincaceira, excelência, brincadeira! A condessinha usa camisinha, rá rá rá! Sem camisinha, só quando casar! Rá rá rá! Já vai, santidade, mas acabou de chegar! Grande sujeito, esse padre! Já, Eliete? Voltamos logo, num patrocínio do Mercadão Batatais, que vende bem demais.

- Porra, Eliete, tá reclamando do que? Eu tô na maior fossa, disfarço e você fica me recriminando? Valtencir, pára de olhar p'ra bunda do Hamlet e diz se eu não tenho razão. Quem, a Suzana no telefone? Agora quem não fala sou eu! Manda ela enfiar o telefone no Cupello e me dá outro uísque, porra! Não chateia, o Conde tá adorando, talvez eu até devolva o saleirinho de prata.

- Voltamos sob o patrocínio da Creolina Florosa; em cada vaso, uma rosa; a creolina Flo-ro-sa! Garçon, meu querido, um uisquinho para o seu camarada aqui que está sequinho, sequinho, e atenção: foi encontrada aqui no salão uma receita médica em nome de Suzana Botelho; como pode ser importante, dona Suzana, não deixe de comprar seu remedinho: Hemorro-bye! Aqui o Doutor Sepúlveda pode até nos esclarecer; vem cá, doutor, esse remédio é para passar aonde? AONDE, DOUTOR? Nossa, que grosseria! Uma pergunta tão simples, se não sabe é só dizer! Ah, nosso querido conde! Vem cá, garotão, vem cá, fica juntinho, assim; diz aí, esse uísque, é batizado ou muambado? Tem nota fiscal disso tudo aí, hein? Rá rá rá! Vem cá, Conde, vem cá, peraí, que é, Eliete? Nenhum problema, o Conde é boa-praça, o Brasil inteiro pode ver. Aliás, Conde, é verdade que o senhor é um cantor de banheiro da melhor qualidade? Canta um pouquinho aí p'ra gente ver, vai! Oh Clervásio Ninon, vem cá cantar com o Conde, vem fazer a Ai, Porra! Minha canela, Hamlet! Desculpa, Conde, volta, deixa a Eliete trabalhar e me traz um uisquinho, pleeeaaseeee... Valtencir, mostra umas bundas aí, vai! Volto já, pessoal!

- Que é. Eliete, porra! Eu batendo o maior papo com o Conde e você aí, fazendo gesto de cortar o pescoço! Cadê o uísque, porra? Porra! Porra, sei lá, porra. Já volto, vou dar uma mijada. - Que é, madame, qual é o problema? Não posso mijar, não? Então levanta daí, porra! Você aí sentada no maior conforto aí e eu querendo mijar feito um louco! Valeu. - ELIETEEE! O papel higiênico daqui é do cacete, tem florzinha e é cheirosinho, vou te levar um pedaço! - Fala, Conde, vocês tratam bem o de trás por aqui, hein? Não fura fácil, não? Tão fininho... volta aqui, Conde. Sujeito esquisito! Oh Condessa, como é que é? Tá gostando da festa? Não, vou ficar até o fim! Olha, se fôr usar o vale-compras vai bem vestida, que eles fotografam os ganhadores e mostram na televisão segurando embalagem de creolina, além de encherem tua boca de biscoito. Condessa, vem cá, é só eu lavar a mão, não é porque eu apertei a sua, não, é que eu tinha esquecido antes, vem cá! - já vou, Eliete, já vou! Café? Deus me livre, me dá um licorzinho que tá bom.

- De volta outra vez, pessoal; estamos aqui, ao vivo, e... atenção, meu celular está tocando! Nada disso, Eliete, um bom repórter não tem segredos com seu público, me dê ele aqui...Suzana, minha querida, que bom! Dê uma palavrinha no meu microfone para os telepres... essa palavrinha não serve, meu bem; tenta outra... também não, lindinha! Ouvintes, vejam só; em algum lugar do meu bolso tem uma foto... 'xa ver... aqui! Vejam esta foto, senhores: tirada em nossa lua de mel... ela era linda, não era? Esses cabelos, ainda sem tintura, a cintura, ela tinha uma, sim; ela urrava, senhores, ela urrava, e agora? O que resta agora daquela paixão, que nos fez ser expulsos de um restaurante na Grécia, que me deixava as costas em carne viva? Sim, senhores, não tenho vergonha de chorar; porra, Eliete, pára de se sacudir! Esta mulher, senhores, podia ser a mãe de meus filhos, e agora, agora envereda as sendas do pecado, -Dr Sepúlveda, venha cá, doutor, o que é que eu devo fazer? Como ginecologista, o senhor entende dessas coisas, onde foi que falhou, onde foi que o amor acabou, doutor? desculpa molhar sua lapela, doutor, mas eu sou sensível, doutor, ó doutor, que que eu faço, doutor... doutor, volta aqui. doutor, e seu juramento, doutor, que... não é vergonha chorar não, Eliete, me dá um conhaque.
- Ouvintes, do outro lado desta linha está uma mulher vil, uma víbora que envenenou um amor maior que o mundo... escuta, Suzana, escuta! -Eu seeeei que vou te amar!!! Por tooodaminha viiideu vou te amar! Vem cá, Hamlet! Canta enquanto eu declamo: "De tudo ao meu amor serei atento antes; hei de enxugar meu riso e acalentar seu pranto, quero vivê-lo em cada vão momento, que é, porra? E daí, tanto faz, ela é uma vaca mesmo! Não vou sair do ar porra nenhuma! Se tirarem, eu me mato ao vivo! Suzana... Zaninha... volta, vai... eu sei que é ridículo um homem do meu tamanho de joelhos, mas eu te amo, Zazá! O microfone tá dando choque, Zaninha, de tanto que eu chorei nele. Tá esse povo todo me olhando mas eu não ligo, Zaninhazinha... eu sei que eu fui um cafajeste, mas a Eliete só faltou implorar! Não significou nada p'ra mim, ela... que é, Suzana? Mas até o Hamlet andou com ela, pombas...Ai, Clervásio! Ai, Eliete! Não corta, não corta que eu vou até o fim! Eu te perdôo tudo, olha só: Pessoal, a gonorréia do Cupello era mentira! O negócio da corretora também! Eu vou botar todo o meu dinheiro lá! Vou pôr o dinheiro, o biscoito, a creolina, o cacete, mas volta, Suzaninha! A história da hemorróida era mentira também, gente! Suzana, tu és todinha uma flor... NÃO era isso que eu queria dizer, flor é em outro sentido... Suzaninha, tem uns trodlogui... monstros querendo me pegar, não deixa, vem p'ra cá. AAAAiiiii!!!! Afastem-se, ou eu estouro os miolos! Se esse pessoal for policial fazendo bico eu vou dedurar, Conde, eu vou dedurar! Eu vou embora, mas deixa eu me despedir do público!
- Senhoras e senhores, nosso programa termina aqui, por motivo de força maior; gostaria de registrar que o amor, senhores, o amor... o amor... é, o amor, é muito bom! Obrigado ao Supermercado Batatais, onde você vende mais, ao Queen, ao Napoleão e à Florosa, à Eliete, ao Valtencir, ao Limão, nosso Cabo-Man, e aos condes Scarpelli, que fizeram esta festa. Amanhã estaremos cobrindo a festa... qual festa mesmo, Eliete? Saleiro? Que saleiro? Ninguém sai daqui! Roubaram a porra do microfone!

 


À Sombra das Kichutes Imortais




Mais reminiscências. Meu sogro diz que eu tenho (ou tive, dependendo do quesito) uma vida interessante; de fato, estes 40 anos têm sido bastante movimentados. Em 77 Rivelino saiu do Fluminense para uma aventura mal-sucedida na Arábia. Bem, ele saiu, eu entrei. Resovi participar da peneira para os infantis. Naquele tempo a coisa não era como hoje, que mais parece um vestibular para o Instituto Rio Branco; havia uma seqüência de testes mas era num clima mais amistoso, sem o peso que há hoje - a carreira de jogador não era tão valorizada, a fome no país era menor. Pois fui, tendo me informado previamente com dois colegas de colégio que treinavam lá. Por algum motivo me acompanhou um amigo de peladas, vascaíno, que resolveu não só ir comigo, como ir à rigor - mas rigor vascaíno: camiseta cavada (com uma rica estampa do Cebolinha, furada), short puído, meião listrado de preto e branco, e sob tudo isso, um par novinho de Kichutes. Quem tem menos de 35 não sabe o que é isso. Explico. Era um tênis que imitava uma chuteira, de borracha (grossa) e lona (idem). Tinha uns pitocos enormes na sola que simulavam as travas de uma chuteira, o que resultava impossível chutar "por baixo", como convém; só saía de bico, mesmo. Como nos encontramos na porta, não pude fazer nada para evitar a tragédia, a não ser tentar o mais possível fingir não conhecê-lo. Existe um Deus, e a peneira foi adiada. Na quarta-feira seguinte, voltei. Havia cerca de 30 ou 40 garotos se amontoando, e o teste seria na base de ir entrando e jogando; o técnico se gabava de à primeira olhada saber se o cidadão era aproveitável ou não. O treino começou, as pessoas iam entrando, e eu batendo bola na lateral. Lá pelas tantas só sobrei eu, fazendo embaixadas sozinho. O técnico (Farias, foi técnico da seleção do Marrocos em 82) claramente não fazia fé, talvez meu biotipo: na época tinha quase 1,80 m (hoje tenho 1,90) e uns 45 quilos. De óculos. Bem, por falta de coisa melhor, me chamou e disse: entra no lugar daquele lá. Problema.
Uso óculos. O campo do Fluminense, naquela época (e hoje ainda) tem uma iluminação horrorosa. Como tinha dado meus óculos para um auxiliar dele segurar (não lembro o nome, era um sujeito sisudo, manco), não enxergava bulhufas, mas não podia dizer isso. Limitei-me a entrar correndo e gritar um "sai você" genérico, eles que se virassem. Esclarecido qual dos três deveria sair, lá fui eu para o outro lado do campo, o mais distante possível do olho clínico do Professor Farias. O sistema nervoso é uma coisa interessante; estava lá para mostrar meu futebol. Foi só entrar em campo para rezar para a bola não vir em minha direção. Mas veio. Quando percebi que era ela - sem os óculos podia ser um pombo, um ladrilho ou um quilo de açucar - já vinha um adversário voando e tomando-a de mim. Quando dei pela coisa, já não conseguia ver a bola de novo, eles já estavam a mais de 5 metros. Mediunicamente intuí o técnico balançando a cabeça. Mal me refizera do baque, estava inclusive ofegante, sei lá porquê, lá vinha a bola de novo. Desta vez dei um passo à frente e tentei travar a bola. O raio daquele campo era uma calombeira só; até autobol jogavam nele! Pois quando tentei pisar nela, um buraco a fez quicar. Pois foi quicar e o ponta-esquerda deles, doido para se fazer às minhas custas, que vinha rente que nem pão quente, passou direto. A bola quicou milimetricamente sobre seu pé, num drible sensacional - pelo menos para quem estivesse um pouco distante. Virei o corpo, levantei a cabeça, não vi nada mas não deixei que isso me impedisse: com a pose que estudara durante muito tempo, lancei a bola ao ataque. Quis o destino que caísse nos pés de alguém do meu time, que fez o gol. Não o vi, mas o ouvi perfeitamente. Na bola seguinte o ponta já veio com mais respeito, e para inovar passei a bola para alguém que eu conseguia ver. Trilou neste instante o apito final, e lá fui eu ver o que o técnico diria. Parecia um Mengele do futebol. Apenas dizia: -Não precisa voltar - ou -Volta quarta-feira. Pensei, não sem certa razão: se ele não falar comigo, não vai poder me mandar embora! Então, fui sorrateiramente para o vestiário, e nem tomei banho. Resgatei meus óculos de cima da mesa e fui pegar o 416, literalmente com as calças na mão.
Com surpreendente rapidez chegou a quarta-feira. Voltei ao clube meio ressabiado, imaginando o que o Professor diria. Pelo visto não só lembrou-se de mim como notou minha saída à francesa (lato e stricto senso), me saudando: -Olha o porco de volta! Supus que isto fosse uma permissão para treinar, o que fiz, sem muito brilho mas também sem fazer muita besteira. Desta vez tomei banho, e tive a permissão formal para voltar a treinar. Passou a me chamar de Gigante Branco - era o nome de um desinfetante ou detergente da época, numa alusão à minha altura e à cor saudável da minha pele.
Treinei uma meia dúzia de vezes, até que o joelho acelerou o que fatalmente aconteceria pela via técnica. Torci-o, e adeus, simples assim. Nunca mais pisei naquele gramado. O melhor de tudo é que eu queria fazer uma surpresa para meu pai; não contei nada sobre estar treinando lá, para um dia convidá-lo a assistir a um jogo ou algo assim. Acabei não deixando de fazer uma surpresa, quase ficando reprovado...
Resolvi escrever esta história até para me expor à execração pública: tivesse continuado, estaria no lugar do Cerezzo na Copa de 82 e jamais teria dado aquele passe para o Paolo Rossi, como também não perderia o pênalti na semifinal de 86. Em 90 eu não teria jogado mesmo, teria brigado com o Lazzaroni, e em 94 com certeza teria feito ao menos um gol no tempo regulamentar, apesar da pressão contrária do Parreira e do Zagallo. Em 98 me despediria do futebol não deixando ninguém contar ao Ronaldinho sobre seu pesadelo (eu sei a diferenca entre um pesadelo e uma convulsão, o que não parece ser o caso do Dr Lydio), e em 2002 não iria, apesar das súplicas, em solidariedade ao Romario, parando com a bola credor do respeito e da admiração dos amantes do futebol, deixando o país, deixa ver... octacampeão mundial. Isso sem falar no Fluminense...






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